Parlamentares paraguaios também cobram devolução de troféus da Guerra da Tríplice Aliança e reacendem debate histórico entre os dois países. Governo brasileiro nega que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha conversado com o presidente do Paraguai, Santiago Peña, após desastrosa fala do petista sobre a Guerra do Paraguai.
A relação diplomática entre Brasil e Paraguai ganhou um novo capítulo de tensão nesta quarta-feira (29), após a Câmara dos Deputados do Paraguai aprovar uma declaração oficial de repúdio às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra da Tríplice Aliança. O documento, construído por consenso entre parlamentares governistas e da oposição, também solicita ao Ministério das Relações Exteriores paraguaio, que intensifique as negociações com o governo brasileiro para a devolução de troféus de guerra, arquivos militares e outros bens históricos que permanecem sob guarda do Brasil desde o fim do conflito no século XIX.
A decisão representa uma elevação do tom nas relações bilaterais e pode abrir uma nova frente de desgaste diplomático para o governo brasileiro em um momento de atritos com países vizinhos.
A controvérsia começou na última sexta-feira (24), durante visita à fábrica da Avibras, em Jacareí (SP), quando Lula defendeu a necessidade de investimentos permanentes nas Forças Armadas. Ao justificar a importância de manter o país preparado para eventuais conflitos, o presidente afirmou:
“Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil.”
A declaração fazia referência ao início da Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), conflito que envolveu Paraguai, Brasil, Argentina e Uruguai e permanece como um dos episódios mais sensíveis da memória nacional paraguaia.
A resposta veio rapidamente de Assunção. O presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, classificou a fala como uma simplificação indevida de um dos episódios mais traumáticos da história do país.
Em publicação nas redes sociais, Latorre afirmou que Lula tratou “com excessiva leveza a maior tragédia da história do Paraguai” e sustentou que o conflito teve origem na intervenção militar do Império do Brasil no Uruguai, interpretação defendida por parte da historiografia paraguaia.
Documento une governo e oposição
A declaração aprovada nesta quarta-feira consolidou propostas apresentadas por diferentes forças políticas, incluindo parlamentares do movimento Honor Colorado, do Partido Liberal Radical Autêntico e do deputado independente Rubén Rubin.
Além do repúdio institucional, o texto determina a criação de uma comissão parlamentar para acompanhar as tratativas diplomáticas com o Brasil e reforça o pedido para que sejam devolvidos bens históricos paraguaios levados durante a guerra.
Entre os itens mencionados estão o Canhão Cristiano, documentos militares, arquivos históricos e outros objetos considerados patrimônio nacional pelo governo paraguaio. Segundo o deputado Alejandro Aguilera, o texto final foi construído por consenso entre todas as bancadas da Câmara.
Guerra ainda divide interpretações
A Guerra da Tríplice Aliança continua sendo um dos temas históricos mais controversos da América do Sul.
Embora exista consenso de que tropas paraguaias invadiram inicialmente territórios brasileiros, como a então Província de Mato Grosso, historiadores divergem sobre as causas do conflito, que envolvem disputas geopolíticas na Bacia do Prata, a intervenção brasileira na guerra civil uruguaia e a política expansionista do governo de Francisco Solano López.
O conflito terminou em 1870 com a derrota paraguaia e provocou devastação econômica e humana sem precedentes. Estimativas amplamente aceitas indicam que o país perdeu entre 60% e 70% de sua população, com impacto especialmente severo sobre a população masculina adulta, tornando a guerra o episódio mais letal da história da América do Sul.
Novo desgaste regional
O episódio amplia a pressão diplomática sobre o Palácio do Planalto em um momento em que o Brasil também enfrenta divergências com a Argentina.
Nos últimos meses, a relação entre Brasília e Buenos Aires passou por sucessivos momentos de tensão em razão de declarações públicas entre autoridades dos dois países, diferenças políticas entre os governos e divergências em temas da agenda regional e do Mercosul. Embora a cooperação institucional tenha sido mantida, os atritos elevaram o tom das relações bilaterais e exigiram esforços diplomáticos para evitar impactos mais profundos na integração regional.
Agora, o impasse com o Paraguai acrescenta um novo elemento de preocupação para a diplomacia brasileira, justamente com um dos principais parceiros do Mercosul e país estratégico para projetos conjuntos nas áreas de energia, infraestrutura e segurança de fronteira.
Até o momento, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil não havia se manifestado oficialmente sobre a declaração aprovada pelo Parlamento paraguaio.

