Contrato de R$ 285,8 milhões com empresa de um funcionário levanta questionamentos e motiva apuração da CGU

Um contrato de R$ 285,8 milhões, firmado pelo Ministério da Saúde por meio de dispensa de licitação, tornou-se alvo de questionamentos públicos após vir à tona que a empresa responsável pela representação comercial do fornecedor possuía apenas um funcionário registrado à época da contratação. A repercussão levou a Controladoria-Geral da União (CGU) a anunciar uma auditoria para verificar a regularidade do processo administrativo.

O acordo, celebrado em abril de 2023, previa o fornecimento de 293,5 mil frascos de imunoglobulina humana, medicamento essencial utilizado no tratamento de pacientes com doenças autoimunes, imunodeficiências e enfermidades neurológicas, como a síndrome de Guillain-Barré. Segundo o Ministério da Saúde, a aquisição ocorreu em caráter emergencial para evitar o desabastecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).

Quem é a empresa contratada

A empresa envolvida é a Auramedi Farmacêutica Ltda., sediada em Aparecida de Goiânia (GO). Embora o contrato tenha sido firmado em nome da fabricante chinesa Nanjing Pharmacare Co. Ltd., a Auramedi atuou como sua representante comercial no Brasil e assinou o contrato perante o governo federal.

Reportagens publicadas em 2023 apontaram que a Auramedi possuía apenas um empregado formalmente registrado até pelo menos março daquele ano e apresentava capital social de aproximadamente R$ 1,3 milhão — números que chamaram atenção diante da dimensão financeira do contrato.

Durante visita realizada por jornalistas à sede da empresa, o imóvel encontrava-se fechado em horário comercial. Comerciantes vizinhos relataram não observar movimentação frequente no local. A empresa também possuía presença digital bastante limitada à época da contratação.

A dispensa de licitação

O contrato foi firmado com fundamento na legislação que permite dispensa de licitação em situações emergenciais, mecanismo previsto para evitar interrupção no fornecimento de bens considerados indispensáveis à administração pública.

Segundo o Ministério da Saúde, a compra emergencial foi necessária em razão da escassez mundial de imunoglobulina e seguiu regulamentação excepcional da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A pasta também afirmou que a medida observou recomendações do Tribunal de Contas da União (TCU) para evitar o desabastecimento do medicamento no SUS.

O histórico da empresa

Outro aspecto que despertou atenção foi o histórico judicial da Auramedi.

A empresa e seu sócio, Fábio Granieri de Oliveira, figuravam como réus em uma ação de improbidade administrativa relacionada a uma contratação realizada durante a pandemia no município de Parauapebas (PA). A ação discutia supostas irregularidades em outra contratação pública.

É importante destacar que responder a uma ação judicial não impede automaticamente uma empresa de contratar com o poder público. À época da assinatura do contrato com o Ministério da Saúde, não havia registro de sanção que proibisse a Auramedi de participar de licitações ou celebrar contratos administrativos.

A investigação da CGU

Após a divulgação do caso, parlamentares solicitaram providências aos órgãos de controle.

Em outubro de 2023, a Controladoria-Geral da União informou oficialmente que incluiria o contrato em seu plano de auditorias para avaliar se a dispensa de licitação observou todos os requisitos legais e os princípios da administração pública.

A decisão não significou reconhecimento de irregularidades, mas a abertura de um procedimento de fiscalização para verificar:

  • a justificativa para a contratação emergencial;
  • a capacidade técnica da empresa representante;
  • a conformidade da dispensa de licitação;
  • a execução do contrato.

A auditoria buscou verificar se todas as exigências legais foram atendidas antes da assinatura do acordo.

A posição do Ministério da Saúde

Em nota divulgada na época, o Ministério da Saúde afirmou que:

  • havia risco concreto de desabastecimento da imunoglobulina;
  • a compra emergencial era necessária para garantir atendimento aos pacientes do SUS;
  • a empresa encontrava-se regular perante os órgãos competentes no momento da contratação;
  • os medicamentos vinham sendo entregues conforme o cronograma estabelecido.

A pasta sustentou que o procedimento observou as normas vigentes e ocorreu dentro da legalidade administrativa.

A defesa da empresa

Em manifestação pública, o sócio da Auramedi, Fábio Granieri de Oliveira, declarou que diversas informações divulgadas sobre a contratação eram equivocadas e afirmou que a representação da fabricante chinesa ocorria de maneira regular.

A empresa sustentou que possuía capacidade para executar o contrato por atuar como representante comercial da fabricante internacional responsável pelo fornecimento do medicamento.

O que permanece como fato

A análise dos documentos públicos permite afirmar, com segurança, que:

  • houve um contrato de R$ 285,8 milhões firmado sem licitação;
  • a Auramedi possuía apenas um funcionário registrado no período apontado pelas reportagens;
  • a empresa atuava como representante da chinesa Nanjing Pharmacare;
  • a CGU abriu procedimento de auditoria para examinar a contratação;
  • o Ministério da Saúde justificou a compra pelo risco de desabastecimento da imunoglobulina;
  • até o momento das informações públicas disponíveis, a abertura da auditoria não constituía prova de fraude nem condenação de qualquer pessoa ou empresa.

Em casos dessa natureza, a função dos órgãos de controle é justamente separar suspeitas de fatos comprovados. O acompanhamento das auditorias e eventuais decisões do Tribunal de Contas da União, da Controladoria-Geral da União e do Poder Judiciário é o caminho institucional para esclarecer definitivamente a regularidade ou não da contratação.

Por redação

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