Leitura entre adolescentes perde força no mundo, Pisa aponta queda histórica e acende alerta sobre concentração, compreensão de textos e uso excessivo das telas.
Imagine um adolescente diante de uma página com algumas dezenas de linhas. Ele sabe ler, reconhece as palavras, mas encontra dificuldade para permanecer no texto, entender o que está implícito e separar uma informação confiável de outra.
Esse cenário ajuda a explicar um dos resultados mais preocupantes do Pisa 2025. A avaliação internacional mostra que a capacidade de compreensão de textos vem recuando entre jovens de 15 anos, em um movimento que atravessa diferentes países e sistemas educacionais.
O problema não é apenas a nota de uma prova. A queda atinge uma habilidade usada diariamente para estudar, trabalhar, interpretar notícias, compreender contratos e tomar decisões. Conforme dados divulgados pela OCDE, o desempenho médio em leitura entre os países da organização caiu 28 pontos entre 2015 e 2025, o equivalente a cerca de um ano e meio de aprendizagem.
O que aconteceu com a leitura dos adolescentes
O Pisa 2025 reuniu aproximadamente 760 mil estudantes de 15 anos em 91 países e economias, sendo a maior edição da avaliação até agora. Os resultados mostram que leitura e matemática atingiram as menores médias já registradas pela OCDE.
Na leitura, a média internacional considerada no levantamento caiu de 501 pontos em 2012 para 466 em 2025. É uma mudança expressiva em pouco mais de uma década e revela que uma parcela crescente dos estudantes está chegando à adolescência com dificuldades para lidar com textos complexos.
O dado chama ainda mais atenção porque a leitura não funciona como uma disciplina isolada. Um aluno que tem dificuldade para compreender um enunciado também pode enfrentar problemas para resolver uma questão de matemática ou interpretar uma explicação científica.
É justamente essa dimensão prática que torna o resultado preocupante. O Pisa não mede apenas a capacidade de decorar conteúdos, mas procura avaliar se o estudante consegue aplicar conhecimentos em situações próximas da vida real.
O celular virou parte do problema?
A expansão das telas aparece entre os fatores associados à mudança. A própria OCDE aponta que os adolescentes estão passando mais tempo em dispositivos digitais e, ao mesmo tempo, dedicando menos espaço à leitura por prazer.
O ponto central não é simplesmente colocar a tecnologia como inimiga. Celulares, computadores e inteligência artificial também podem ajudar no aprendizado. O problema surge quando a tecnologia passa a disputar continuamente a atenção do estudante.
A avaliação indica que muitos jovens passaram a percorrer textos rapidamente, em vez de ler com atenção e voltar a trechos difíceis quando necessário. Esse comportamento pode comprometer justamente a compreensão mais profunda, aquela que exige concentração e reflexão.
É uma mudança silenciosa. O adolescente continua lendo mensagens, comentários, legendas e páginas na internet, mas isso não significa necessariamente que esteja praticando a mesma leitura exigida para compreender um argumento, comparar fontes ou identificar uma informação contraditória.
A diferença é importante porque ler muito não é o mesmo que ler profundamente. A quantidade de palavras consumidas diariamente pode aumentar enquanto a capacidade de permanecer concentrado em um texto longo diminui.
Inteligência artificial acrescenta uma nova camada ao desafio
A chegada dos chatbots tornou essa discussão ainda mais complexa. Ferramentas de inteligência artificial podem explicar um assunto, resumir um conteúdo e ajudar na pesquisa, mas também podem fazer pelo estudante uma parte do esforço que deveria ser realizado por ele.
O Pisa 2025 encontrou uma relação preocupante entre determinados usos da inteligência artificial e o desempenho escolar. O problema, portanto, não está simplesmente em utilizar a tecnologia, mas em como ela é utilizada durante o processo de aprendizagem.
Quando um aluno pede que uma ferramenta leia, resuma, organize e escreva por ele, existe o risco de transformar uma ferramenta de apoio em substituta do raciocínio. Nesse caso, o estudante recebe a resposta, mas deixa de exercitar algumas das habilidades necessárias para chegar até ela.
Essa mudança coloca escolas diante de uma tarefa difícil. Proibir toda tecnologia não resolve a questão, porque o mundo fora da sala de aula continuará digital. O desafio é ensinar o jovem a usar essas ferramentas sem abrir mão da capacidade de pensar, verificar e interpretar.
Brasil permanece abaixo da média, mas há um detalhe importante
O Brasil também aparece abaixo da média internacional. No Pisa 2025, os estudantes brasileiros obtiveram 408 pontos em leitura, enquanto a média dos países da OCDE foi de 466 pontos. Em matemática, o Brasil marcou 377 pontos, e em ciências, 409.
Na comparação com 2022, a pontuação brasileira em leitura caiu dois pontos. A variação, porém, está dentro de uma faixa que pode ser explicada pela margem de erro da pesquisa, portanto não é possível afirmar que houve uma piora estatisticamente significativa nesse intervalo.
Outro dado ajuda a compreender a dimensão do desafio. Apenas 49% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência em leitura, considerado pela OCDE o patamar mínimo para demonstrar conhecimentos e habilidades básicos. Nos países da organização, a proporção foi de 69%.
O cenário brasileiro, contudo, não pode ser resumido apenas a uma piora. Quando a comparação é feita desde 2006, o país conseguiu reduzir parte da distância em relação à média da OCDE, embora ainda permaneça significativamente abaixo dos países ricos.
O que está em jogo vai muito além das notas
Uma criança ou adolescente com dificuldade para compreender textos não enfrenta apenas um problema escolar. A habilidade interfere na maneira como essa pessoa interpreta uma notícia, entende uma orientação médica, avalia uma propaganda ou decide se uma informação encontrada nas redes sociais é verdadeira.
Por isso, a discussão sobre leitura entre adolescentes também é uma discussão sobre autonomia. Quanto maior a capacidade de compreender diferentes pontos de vista e verificar informações, menor a dependência de outras pessoas ou de algoritmos para interpretar o mundo.
Os resultados do Pisa chegam em um momento em que a escola disputa a atenção dos estudantes com redes sociais, vídeos curtos, jogos, notificações e ferramentas capazes de produzir respostas instantaneamente. A competição não acontece apenas pelo tempo disponível, mas pela própria maneira como a atenção é utilizada.
A resposta, portanto, dificilmente estará em simplesmente mandar os adolescentes lerem mais. Será necessário recuperar o interesse pela leitura, ensinar estratégias de compreensão e criar ambientes em que seja possível permanecer diante de um texto sem a necessidade constante de mudar de estímulo.
O alerta deixado pelo Pisa 2025 é justamente esse. A tecnologia pode fazer parte da solução, mas não pode substituir a capacidade humana de compreender aquilo que está sendo lido. E, em uma época marcada pelo excesso de informação, saber ler com atenção talvez seja uma das habilidades mais importantes que um adolescente pode levar para a vida adulta.
O desempenho de adolescentes em leitura atingiu um dos níveis mais baixos já registrados pelo Pisa, avaliação internacional coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE.
O levantamento de 2025 avaliou cerca de 760 mil estudantes de 15 anos em 91 países e economias. Os resultados mostram uma queda generalizada em leitura e matemática, enquanto o uso intenso de dispositivos digitais passou a fazer parte do debate sobre aprendizagem.
Na leitura, a média dos países da OCDE caiu de 501 pontos, em 2012, para 466 pontos em 2025. O resultado representa uma queda de 35 pontos em pouco mais de uma década, segundo dados divulgados pela OCDE e repercutidos pela Reuters.
Queda na leitura preocupa especialistas
A redução não significa apenas que os estudantes estão acertando menos questões em uma prova. O Pisa avalia a capacidade de compreender textos, localizar informações, interpretar conteúdos e utilizar aquilo que foi lido para resolver situações do cotidiano.
A piora também ocorre em outras áreas. A média em matemática entre os países da OCDE caiu de 502 pontos, em 2012, para 469 em 2025. Em ciências, o resultado passou de 506 pontos, em 2009, para 486.
A leitura, porém, chama atenção porque está diretamente relacionada ao desempenho em diferentes disciplinas. Um estudante que não consegue interpretar corretamente um enunciado pode encontrar dificuldades mesmo quando domina o conteúdo necessário para responder à questão.
O Pisa aponta ainda uma mudança na maneira como parte dos adolescentes lida com textos. Em vez de uma leitura cuidadosa, muitos estudantes passaram a percorrer conteúdos rapidamente, comportamento que pode comprometer a compreensão e aumentar o número de respostas incorretas.
Tempo de tela entra no centro da discussão
O avanço do uso de celulares e outros dispositivos digitais aparece entre os fatores analisados pela OCDE. A organização aponta que os estudantes passam cada vez mais tempo conectados, enquanto o hábito de ler por prazer perdeu espaço.
O problema não está simplesmente no uso da tecnologia. Computadores, celulares e ferramentas digitais também podem ser utilizados para estudar, pesquisar e desenvolver atividades escolares.
A preocupação aumenta quando o tempo de exposição às telas passa a competir diretamente com atividades que exigem concentração prolongada. A Reuters destaca que estudantes que passam mais de cinco horas por dia em dispositivos digitais apresentam queda acentuada no desempenho acadêmico.
A mudança também afeta o tipo de conteúdo consumido. Textos curtos, vídeos e informações apresentadas em sequência rápida exigem um tipo diferente de atenção daquele necessário para acompanhar uma reportagem extensa, interpretar um livro ou comparar diferentes argumentos.
Inteligência artificial muda rotina dos estudantes
A inteligência artificial acrescentou outro elemento à discussão. Ferramentas capazes de responder perguntas, resumir textos e produzir trabalhos passaram a fazer parte da rotina de muitos estudantes.
O uso dessas tecnologias não apresenta o mesmo resultado em todas as situações. O desempenho depende da finalidade e da maneira como a ferramenta é utilizada durante o processo de aprendizagem.
A preocupação de educadores está principalmente nos casos em que a inteligência artificial substitui etapas que deveriam ser realizadas pelo próprio aluno. Se o estudante deixa de interpretar um texto, organizar informações ou construir uma resposta porque uma ferramenta faz essas tarefas por ele, parte do processo de aprendizagem deixa de acontecer.
A avaliação internacional, portanto, coloca escolas diante de um desafio novo. A questão já não é apenas controlar o acesso aos dispositivos, mas ensinar os estudantes a utilizar essas ferramentas sem abandonar habilidades fundamentais de leitura, interpretação e análise.
Brasil fica abaixo da média internacional
O resultado brasileiro também mostra dificuldades. No Pisa 2025, os estudantes do país alcançaram 408 pontos em leitura, enquanto a média dos países da OCDE ficou em 466.
Em matemática, o Brasil registrou 377 pontos, contra 469 da média da OCDE. Em ciências, foram 409 pontos, enquanto os países da organização alcançaram média de 486.
Na leitura, o resultado brasileiro ficou praticamente estável em relação a 2022. Naquele ano, a pontuação havia sido de 410 pontos, uma diferença de dois pontos que não permite afirmar, considerando a margem de erro, uma mudança estatisticamente significativa.
Outro dado ajuda a dimensionar o problema. Apenas 49% dos estudantes brasileiros atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em leitura, considerado o patamar mínimo pela OCDE. Entre os países da organização, o percentual chegou a 69%.
O Brasil também enfrenta uma forte desigualdade de desempenho. Em ciências, por exemplo, estudantes de famílias com maior condição socioeconômica tiveram resultado 96 pontos superior ao dos alunos mais pobres, diferença maior que a média observada na OCDE.
O que os números revelam sobre a educação
Os resultados do Pisa 2025 mostram que a queda na aprendizagem não é um fenômeno isolado de um país. Adolescentes de diferentes regiões do mundo apresentaram dificuldades maiores em competências consideradas essenciais para a vida escolar e profissional.
Ao mesmo tempo, o levantamento mostra que o cenário não é igual em todos os lugares. Países e regiões do leste asiático continuam entre os melhores desempenhos internacionais, enquanto Inglaterra e Estônia também aparecem entre os dez primeiros em diferentes áreas.
Para o Brasil, o desafio é duplo. Além de melhorar o desempenho em leitura, matemática e ciências, o país precisa lidar com desigualdades que fazem com que estudantes de diferentes condições sociais tenham oportunidades de aprendizagem muito diferentes.
O avanço das telas e da inteligência artificial acrescenta uma dificuldade que não existia na mesma dimensão quando o Pisa começou, em 2000. A escola precisa ensinar os jovens a lidar com um volume de informação muito maior, sem perder a capacidade de ler com atenção, interpretar dados e avaliar aquilo que encontram.
Os números do Pisa 2025 colocam, portanto, a leitura entre adolescentes no centro de um problema mais amplo. A queda registrada pela avaliação não diz respeito apenas ao desempenho em uma prova, mas à capacidade de uma nova geração de compreender textos e informações em um ambiente cada vez mais dominado pela tecnologia.
