Pesquisadora da UFRJ diz que recebe pedidos de famílias em busca do tratamento experimental e afirma que critérios atuais restringiram o acesso à substância.
Há quase três décadas, a cientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisa a polilaminina, uma substância experimental que vem sendo estudada como possível alternativa para pessoas com lesões na medula espinhal.
Hoje, além dos desafios científicos, a pesquisadora enfrenta uma situação que, segundo ela, tem forte impacto emocional: receber mensagens e pedidos de famílias que procuram uma possibilidade de tratamento para parentes que ficaram paraplégicos ou tetraplégicos.
Em entrevista ao Só Notícia Boa, publicada em agosto de 2026, Tatiana contou que costuma se emocionar ao precisar explicar que muitos pacientes não conseguem receber a substância dentro dos critérios atualmente adotados.
Questionada sobre quantas vezes chora diante dessas situações, respondeu:
“Não é todo dia, quase todos.”
A declaração resume o drama vivido por famílias que enxergam na pesquisa uma possibilidade de recuperação, mas encontram limitações para acessar uma substância que ainda está em fase experimental.
O que aconteceu com o uso da polilaminina?
Segundo Tatiana, pacientes com lesões medulares de até 90 dias chegaram a receber a polilaminina por meio do chamado uso compassivo, modalidade que permite, em circunstâncias específicas, o acesso excepcional a produtos ainda em desenvolvimento.
A pesquisadora afirma que o cenário ficou mais restritivo e que os critérios atualmente considerados passaram a impedir que determinados pacientes recebam a substância.
Um dos pontos centrais da discussão é a referência ao período de 72 horas após a lesão.
A Anvisa autorizou, em 5 de janeiro de 2026, o primeiro estudo clínico de fase 1 da polilaminina em seres humanos. O protocolo aprovado prevê cinco pacientes adultos com lesão medular torácica aguda e completa, entre T2 e T10, ocorrida há menos de 72 horas e com indicação cirúrgica.
É importante, porém, fazer uma distinção: as 72 horas são um critério específico do estudo clínico autorizado pela Anvisa. A afirmação de que esse prazo passou a constituir uma regra geral para todo uso compassivo é uma interpretação contestada pela pesquisadora e, portanto, deve ser apresentada como tal.
Tatiana critica justamente a aplicação desses critérios do estudo clínico a pacientes que buscam acesso excepcional à substância.
Primeiro estudo em humanos
A autorização da Anvisa representa uma nova etapa na história da polilaminina.
O estudo aprovado em janeiro é de fase 1, etapa cujo objetivo principal é avaliar a segurança do produto. A própria Anvisa afirma que o estudo, por seu tamanho e desenho, ainda é insuficiente para avaliar a eficácia da polilaminina.
O protocolo prevê a participação de cinco pacientes, com idade entre 18 e 72 anos, que tenham sofrido lesões completas e agudas da medula espinhal torácica entre T2 e T10. A aplicação precisa ocorrer em até 72 horas após a lesão.
A substância será administrada diretamente na região lesionada da medula. Na formulação utilizada no estudo, a laminina é extraída de placenta humana e preparada para formar a chamada polilaminina.
Segundo a Anvisa, o mecanismo de ação da polilaminina para o tratamento do trauma medular ainda não está completamente esclarecido.
Polilaminina ainda não é tratamento aprovado
Apesar da expectativa criada em torno da pesquisa, a polilaminina continua sendo experimental.
Isso significa que ainda não há comprovação clínica suficiente de que a substância seja capaz de recuperar movimentos ou reverter lesões medulares em seres humanos.
A própria Anvisa explica que, nesta primeira fase, o foco é verificar a segurança do produto. Somente depois de resultados favoráveis e de novas etapas de pesquisa será possível avaliar adequadamente sua eficácia.
Ensaios de fase 2 e 3, caso o desenvolvimento avance, serão necessários para produzir evidências mais robustas sobre os possíveis benefícios do tratamento.
Esse cuidado é especialmente importante porque resultados observados em pesquisas laboratoriais e em modelos animais não permitem, por si só, concluir que o mesmo efeito ocorrerá em seres humanos.
A esperança das famílias
Mesmo sem comprovação definitiva de eficácia, a pesquisa alimenta a esperança de pessoas que sofreram lesões graves na medula.
Famílias procuram Tatiana e sua equipe em busca de informações sobre a possibilidade de utilização da substância. Para quem sofreu uma lesão incapacitante recentemente, a espera por novas alternativas terapêuticas pode ser angustiante.
É nesse contato direto com os pacientes e familiares que, segundo a pesquisadora, surge uma das partes mais difíceis de seu trabalho.
Ela precisa explicar que uma pesquisa promissora não significa que o tratamento esteja disponível para todos — e que, em muitos casos, não há autorização para administrar a substância.
“Não é todo dia, quase todos”, afirmou Tatiana ao falar sobre a frequência com que se emociona diante dessas situações.
Ciência x expectativa
A história da polilaminina reúne, ao mesmo tempo, expectativa e cautela.
De um lado, décadas de pesquisas realizadas por Tatiana e outros pesquisadores contribuíram para levar a substância até a primeira etapa de testes clínicos em seres humanos.
De outro, a própria autorização da Anvisa deixa claro que ainda é cedo para afirmar que a polilaminina funciona como tratamento para lesões medulares.
A autorização do estudo clínico não representa aprovação da substância como medicamento de uso geral. Ela permite que pesquisadores realizem uma investigação controlada para descobrir, inicialmente, se a aplicação é segura.
A Anvisa também acompanha o desenvolvimento clínico por meio do monitoramento de eventos adversos e de inspeções relacionadas às boas práticas clínicas.
Por isso, a discussão sobre o acesso excepcional à polilaminina envolve uma questão delicada: como oferecer possibilidades a pacientes que não têm alternativas satisfatórias sem antecipar conclusões que a ciência ainda não conseguiu comprovar.
Enquanto o estudo clínico avança, Tatiana continua diante das famílias que chegam até ela em busca de esperança.
Para essas pessoas, a polilaminina representa a possibilidade de um futuro diferente. Para a ciência, porém, ela ainda é uma hipótese que precisa passar por todas as etapas de comprovação.
E é justamente entre essas duas realidades — a esperança dos pacientes e a necessidade de evidências científicas — que a pesquisa entra agora em uma das fases mais importantes de sua história.
