A agência reguladora de telecomunicações da Venezuela reverteu o bloqueio de diversos sites de notícias que enfrentavam restrições de acesso há anos no país. O anúncio oficial ocorreu no mesmo dia em que o governo interino e a oposição iniciam uma nova fase de negociações políticas centradas em temas como a liberdade de imprensa.
Retorno dos veículos de comunicação e impacto na imprensa
Através de uma nota, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) confirmou o “restabelecimento formal do acesso a diversas plataformas e veículos de comunicação digitais nacionais e internacionais”. Com a determinação, endereços tradicionais como El Nacional, Efecto Cocuyo, El Pitazo, Runrunes e TalCual voltaram a ser acessados sem a necessidade de conexões privadas (VPNs), recurso anteriormente indispensável para os leitores locais. O portal NTN24 também teve a transmissão restabelecida, embora com instabilidades pontuais.
O encerramento do bloqueio, visto historicamente por entidades de direitos digitais como uma prática de censura, representa um alívio financeiro e operacional para as redações. O diretor do portal TalCual, Víctor Amaya, cujo site estava inacessível desde julho de 2024, comentou a vitória do setor: “Conseguimos resistir, conseguimos inventar e chegamos vivos a este momento”.
Amaya revelou que as sanções informais provocaram uma perda de 60% do público do veículo e afugentaram patrocinadores por receio de retaliações estatais. O jornalista expressou o desejo de que a medida proporcione ao país a chance de “ter um ambiente de comunicação normalizado”.
Para Luis Ernesto Blanco, diretor editorial do Runrunes, a ação governamental escancara a arbitrariedade dos bloqueios anteriores: “Não havia uma resolução administrativa, uma ordem judicial que o exigisse”, destacou.
Balanço das restrições e desconfiança de entidades
Apesar da liberação de veículos expressivos, organizações independentes mantêm a cautela. A ONG VE Sin Filtro realizou checagens em 17 portais através de diferentes operadoras de internet e constatou que a censura digital permanece ampla. Segundo o levantamento da entidade, ainda existem 188 páginas bloqueadas na Venezuela, das quais 79 pertencem a veículos jornalísticos.
A assimetria no cumprimento da medida também preocupa a liderança do TalCual. Amaya externou receio quanto à efetividade total do anúncio: “Tomara que não aconteça como em algumas libertações de presos, em que 100 são anunciadas, mas 60 ou 70 são verificadas”.
