A retomada dos embarques de carne bovina brasileira para a União Europeia (UE) enfrenta barreiras temporais que tornam improvável uma liberação em menos de dois anos. Mesmo com a mobilização de exportadores nacionais por um período de transição junto ao governo federal, as autoridades de Bruxelas não deram indícios de flexibilização das regras sanitárias vigentes.
A posição foi detalhada por Jean-Pierre Bou, chefe-adjunto da Delegação da UE no Brasil, durante participação no Global Agribusiness Festival (GAFFFF), promovido pela Datagro. Segundo o diplomata, o diálogo entre as partes continua ativo para superar o impasse. “Em princípio, parece difícil, mas eu sei que todos os atores nesta discussão estão fazendo o possível para encontrar formas de sair desta problemática o mais rapidamente possível”, afirma Bou.
Exigências sanitárias e ciclo de vida do rebanho
A suspensão das importações de proteína animal brasileira foi comunicada inicialmente em maio e entrou em vigor no dia 3 de setembro. A decisão ocorreu após o Brasil ser excluído do rol de países que comprovam o cumprimento dos padrões europeus relativos ao uso de antimicrobianos na pecuária. As normas da UE vedam expressamente tais substâncias com a finalidade de ganho de peso (promotores de crescimento) e impedem o uso veterinário de medicamentos prioritários para a saúde humana.
O principal entrave para os produtores de gado de corte é que a União Europeia exige atestados de que os animais não receberam essas substâncias ao longo de toda a sua vida — período que, no caso dos bovinos, atinge cerca de dois anos. A situação é distinta da de outras cadeias produtivas com ciclos mais curtos ou processos mais simples de averiguação.
“No caso do frango e do mel, a União Europeia conseguiu realizar uma auditoria muito rapidamente. Os resultados foram satisfatórios e, por isso, houve um relatório positivo. Isso deve permitir a retomada das exportações desses produtos”, diz.
Impactos do acordo com o Mercosul e comércio bilateral
O anúncio da restrição gerou críticas de representantes do agronegócio nacional, que apontaram a medida como protecionista por coincidir com a vigência do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. O diplomata rebateu a avaliação, sustentando que o tratado já trouxe efeitos econômicos imediatos.
“Posso entender o nível de frustração por parte dos brasileiros. Mas [depois do acordo com o Mercosul] muitas oportunidades se abriram. Nas primeiras semanas de aplicação, houve um crescimento importante das exportações de produtos agrícolas para a UE, como uvas e café”, destaca Bou.
Ele frisou que as reduções tarifárias tendem a ampliar o comércio bilateral de modo progressivo. “No caso do café, as tarifas não baixaram a zero; é um processo gradual. Mesmo assim, já houve um forte aumento.” De acordo com dados do Ministério da Agricultura, os embarques brasileiros de café para os países europeus cresceram 10,9% em volume entre maio e agosto, quando comparados ao mesmo período de 2025.
Lei antidesmatamento e desafios de rastreabilidade
Além da esfera sanitária, a imagem ambiental do país segue no centro das atenções europeias. Questionado sobre a percepção internacional sobre o Brasil, Bou ressaltou a necessidade de manter e consolidar as ações de fiscalização ambiental e as exigências do Código Florestal. “É importante mostrar que o Brasil continua comprometido com estes esforços que reconhecemos”, afirmou.

