Incêndio atinge laboratórios de câncer e autismo na UFPE

Um incêndio que começou na noite de quarta-feira (7) atingiu uma estrutura histórica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e provocou graves prejuízos a estudos científicos de ponta. O prédio abrigava laboratórios voltados a pesquisas sobre câncer, Covid-19 e Transtorno do Espectro Autista (TEA). Segundo a Reitoria da instituição, o montante das perdas materiais e científicas está avaliado em aproximadamente R$ 100 milhões.

Projetos científicos e equipamentos destruídos

O edifício de dois pavimentos, onde anteriormente operavam o Restaurante Universitário e a Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine), atualmente acolhe o Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica e núcleos dos departamentos de Biomedicina, Biologia e Educação Física. As chamas concentraram-se principalmente no primeiro andar, destruindo maquinários e bancos de dados essenciais para trabalhos de pós-graduação e iniciação científica.

A professora e servidora da instituição, Melissa Leandro Celestino, utilizava as instalações com seu grupo acadêmico para avaliar parâmetros de saúde, biomecânica, comportamento motor, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e autismo. Dentre os aparelhos de alto custo atingidos estão câmeras de análise tridimensional, computadores de alto desempenho e ultrafreezers capazes de operar a -80ºC para conservação de material biológico.

O estudante de Educação Física Vitor Lima estava no local no momento em que as chamas tiveram início, por volta das 19h30, e relatou o socorro inicial prestado pela segurança do campus:

“Estávamos no laboratório, trabalhando normalmente, até que recebemos a visita de um servidor de segurança da universidade, batendo na janela e informando que o fogo tinha começado. Esse prédio comporta diversos tipos de laboratórios, projetos de pesquisa. No nosso caso, trabalhávamos com exercício físico e saúde. Tínhamos computadores, aparelhos de biomecânica e câmeras. Possivelmente tudo isso foi danificado”, disse.

Outros pesquisadores, como as estudantes Larissa Nascimento (Biologia) e Bianca Souza (Biomedicina), também constataram o comprometimento de amostras e dados armazenados no local.

Instalações antigas e sequência de ocorrências

O combate às chamas mobilizou o Corpo de Bombeiros até as 5h de quinta-feira (8), mas novos focos de fumaça e fogo demandaram o retorno de equipes ao local por volta das 9h20 para serviços de rescaldo adicionais.

O sinistro foi o terceiro registrado na UFPE em um intervalo de uma semana, somando-se a outros episódios ocorridos nos dias 30 de setembro e 5 de outubro. O reitor Alfredo Macedo apontou o desgaste estrutural dos imóveis históricos da universidade como um desafio de gestão.

“É um prédio antigo, assim como muitos outros prédios da universidade. Nós temos na UFPE mais de 360 prédios. Alguns têm idade superior a 70 ou 80 anos”, disse o reitor à TV Globo.

Usuários relataram que o bloco vinha sofrendo com oscilações de energia frequentes, possivelmente causadas pela alta demanda de aparelhos modernos conectados a uma fiação defasada. A estudante Bianca Souza descreveu a instabilidade recorrente:

“No nosso laboratório, a gente vinha tendo alguns problemas em relação a isso. Justamente porque a energia ia caindo e subindo. A gente quase perdeu o nosso ‘menos 80’, que é um freezer bem grande que chega a temperaturas bem baixas”, disse Bianca Souza, estudante de biomedicina.

Investigação sobre possível ação criminosa

Diante do histórico recente e da gravidade dos impactos institucionais, a Polícia Federal abriu um inquérito para verificar a possibilidade de incêndio criminoso. Em comunicado oficial, a instituição declarou que “equipe de peritos federais se deslocou para a UFPE, objetivando realizar exame do local”.

A administração central da universidade comunicou que fará um inventário completo dos danos patrimoniais e acadêmicos para viabilizar formas de assistência e recuperação dos projetos afetados.

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