Senador Carlos Viana pede investigação sobre o funcionamento do “Exército do Lula”, que reúne milhões de seguidores; solicitação inclui apuração de possíveis contratações e de conteúdos divulgados durante a campanha presidencial
O deputado federal André Janones (Rede-MG) entrou no centro de uma nova controvérsia eleitoral após o senador Carlos Viana (PSD-MG) solicitar ao Ministério Público Eleitoral (MPE) a apuração do canal “Exército do Lula”, criado no WhatsApp para mobilizar apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições de 2026.
O pedido foi apresentado na quarta-feira (7) e solicita que o órgão investigue o funcionamento da iniciativa, incluindo a eventual contratação de pessoas para produzir, administrar ou distribuir conteúdos políticos. O senador também quer que seja verificado se o canal está sendo utilizado para divulgar materiais que ultrapassem os limites da liberdade de manifestação política.
Apesar da solicitação, Viana reconheceu, no documento, que não havia elementos disponíveis para afirmar a existência de irregularidades. A iniciativa busca, portanto, esclarecer como a estrutura funciona e se as atividades desenvolvidas estão de acordo com a legislação eleitoral. Até as informações publicadas sobre o caso, não havia confirmação de uma infração cometida por Janones relacionada ao canal.
Canal cresce rapidamente durante o segundo turno
Batizado de “Exército do Lula”, o canal foi criado para ampliar a mobilização digital em favor da candidatura à reeleição do presidente. A iniciativa ganhou força após o resultado do primeiro turno, quando Lula ficou atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL), que disputa a Presidência no segundo turno.
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, o canal contava com aproximadamente 50 mil integrantes antes da votação de primeiro turno. A partir de então, passou a registrar uma expansão acelerada, chegando a mais de 2 milhões de seguidores no dia 7 de outubro.
No sábado (10), a mobilização já havia alcançado cerca de 3 milhões de seguidores, conforme informações publicadas pela imprensa nacional.
O crescimento chamou a atenção de integrantes das campanhas presidenciais e ampliou a importância dos canais de mensagens como instrumentos de comunicação política. Diferentemente das publicações abertas em redes sociais tradicionais, o WhatsApp permite que conteúdos sejam distribuídos diretamente a uma base de seguidores, que também pode compartilhá-los em outros ambientes digitais.
O que Carlos Viana quer que seja investigado?
O ofício encaminhado ao Ministério Público Eleitoral pede esclarecimentos sobre três pontos principais:
- Funcionamento do canal: como a estrutura é organizada e de que maneira ocorre a distribuição das publicações.
- Possíveis contratações: se existem pessoas remuneradas para produzir, administrar ou disseminar os materiais divulgados.
- Conteúdo eleitoral: se as mensagens publicadas respeitam os limites legais da manifestação política durante o período eleitoral.
O pedido foi direcionado ao procurador-geral eleitoral, Paulo Gonet. As informações sobre a iniciativa foram divulgadas inicialmente pelo Broadcast Político, serviço de notícias em tempo real do Grupo Estado, e reproduzidas por outros veículos de comunicação.
É importante ressaltar que a solicitação de apuração não significa que o Ministério Público tenha concluído pela existência de uma irregularidade. Também não equivale, por si só, à abertura de uma ação judicial ou à aplicação de uma sanção eleitoral.
A eventual existência de pagamentos, por exemplo, precisaria ser analisada à luz das circunstâncias concretas, da origem dos recursos, da natureza dos serviços e das regras aplicáveis à campanha. A simples contratação de profissionais para atividades de comunicação não comprova, isoladamente, a prática de uma infração.
Lula também participou da mobilização
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou diretamente da divulgação do canal. Em um vídeo publicado nas redes sociais em 7 de outubro, ao lado de Janones, o petista convidou apoiadores a ingressarem no “Exército do Lula” e incentivou o crescimento da comunidade.
Na gravação, Lula afirmou: “Vamos chegar a 5, 10 milhões de pessoas”, ao defender a ampliação do alcance da iniciativa.
O canal passou a ser utilizado para distribuir vídeos, textos e orientações de mobilização. A estratégia inclui incentivar os seguidores a compartilhar os materiais em outras plataformas, ampliando a circulação das mensagens favoráveis ao presidente.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Janones afirmou que tomou a iniciativa de ampliar o canal por conta própria, diante da avaliação de que a campanha precisava melhorar sua comunicação digital após o primeiro turno.
O parlamentar também defendeu uma estratégia com vídeos mais espontâneos e uma presença mais próxima do cotidiano dos eleitores, em vez de depender exclusivamente de produções publicitárias tradicionais.
Disputa política também chega ao WhatsApp
O avanço do canal de Janones ocorre em meio à intensificação da disputa digital entre os grupos políticos que apoiam Lula e Flávio Bolsonaro.
Depois da expansão do “Exército do Lula”, aliados do candidato do PL também passaram a incentivar a entrada de apoiadores em um canal chamado “Tropa do Flávio”.
A movimentação demonstra como os aplicativos de mensagens ganharam espaço na estratégia das campanhas, especialmente na tentativa de mobilizar militantes, distribuir argumentos políticos e alcançar eleitores indecisos.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 9 de outubro, integrantes da campanha de Flávio demonstraram preocupação com a velocidade de circulação de conteúdos pelo WhatsApp e com a dificuldade de acompanhar, em tempo real, o alcance das mensagens compartilhadas.
O deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) também criticou a iniciativa de Janones e a classificou como uma “milícia digital”. A expressão, nesse contexto, representa uma acusação política atribuída ao parlamentar, e não uma classificação jurídica estabelecida pelas autoridades.
Do outro lado, apoiadores de Lula têm defendido o uso das redes para responder a críticas e ampliar a divulgação das propostas do presidente.
Divulgação de informações falsas entra no debate
A circulação de conteúdos políticos pelo WhatsApp também levantou questionamentos sobre a veracidade das informações compartilhadas durante a campanha.
Em 6 de outubro, o SBT News informou que integrantes da comunicação do Partido Liberal e influenciadores de direita discutiram medidas para tentar retirar do ar o canal de Janones. Entre as reclamações relatadas estavam publicações consideradas falsas pelos críticos da iniciativa.
A existência dessas reclamações, contudo, não comprova automaticamente que todo o conteúdo divulgado pelo canal seja falso ou ilegal. A avaliação de cada publicação depende de seu teor, do contexto em que foi apresentada e das evidências disponíveis.
O debate sobre desinformação também envolve publicações de integrantes dos diferentes campos políticos. Em 9 de outubro, a Folha de S.Paulo noticiou decisões judiciais que determinaram a remoção de postagens relacionadas à disputa presidencial, incluindo conteúdos publicados por Janones e pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ).
Essas decisões envolvendo publicações específicas devem ser analisadas separadamente do pedido de apuração apresentado por Carlos Viana. Não se pode concluir, sem documentação que estabeleça essa relação, que as decisões judiciais sejam consequência da representação sobre o canal.
O que diz a legislação eleitoral?
A propaganda eleitoral na internet é permitida, desde que respeite as normas estabelecidas pela Justiça Eleitoral. As regras abrangem a divulgação de conteúdos em redes sociais, aplicativos de mensagens e outras plataformas digitais.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informa que a propaganda eleitoral pode ocorrer nesses ambientes, observadas as exigências legais. A legislação também prevê medidas para enfrentar conteúdos fraudulentos e práticas capazes de comprometer a integridade do processo eleitoral.
No caso do “Exército do Lula”, uma eventual análise jurídica precisaria considerar o conteúdo das mensagens, a forma de organização do canal, a existência de recursos financeiros e a responsabilidade dos envolvidos pela produção e divulgação dos materiais.
O alcance expressivo de uma comunidade digital, por si só, não demonstra uma violação da legislação. Da mesma forma, a finalidade eleitoral de um canal não o torna automaticamente irregular, já que a mobilização política na internet é permitida dentro dos limites legais.
Caso sejam identificados indícios concretos de infração, o Ministério Público Eleitoral poderá avaliar as providências cabíveis, conforme suas atribuições e os elementos reunidos.
Investigação ainda precisa esclarecer os fatos
O caso coloca em discussão a transparência das estruturas digitais utilizadas para mobilização eleitoral e os limites entre a militância política, a comunicação de campanha e eventuais práticas proibidas pela legislação.
O pedido de Carlos Viana busca esclarecer como o canal de Janones opera, quem participa de sua administração e se existe uma estrutura profissional remunerada para distribuir conteúdos. A apuração também poderá examinar se as publicações respeitam as normas eleitorais aplicáveis.
Até o momento, porém, é necessário distinguir os questionamentos levantados pelo senador dos fatos efetivamente comprovados. O documento apresentado ao MPE não estabelece, por si só, a ocorrência de crime ou infração eleitoral.
O ponto central é saber se a estrutura de mobilização funciona dentro das regras eleitorais. Essa conclusão depende da análise dos fatos e de eventuais manifestações das autoridades competentes, e não apenas do crescimento do canal ou das acusações feitas por adversários políticos.

