Com o segundo maior eleitorado do país, Minas Gerais registra uma virada no primeiro turno de 2026 e coloca Lula diante de um desafio estratégico para tentar reverter a vantagem de Flávio Bolsonaro. Abstenção elevada, força das grandes cidades e diferenças regionais tornam o estado decisivo na reta final da campanha.
Por Redação
BELO HORIZONTE (MG) — Se existe um estado capaz de transformar uma disputa presidencial em um retrato das contradições políticas, sociais e econômicas do Brasil, esse estado é Minas Gerais. Historicamente tratado como um dos principais termômetros das eleições nacionais, o território mineiro volta a ocupar uma posição estratégica na corrida pelo Palácio do Planalto. Em 2026, porém, o cenário apresenta uma mudança importante: depois de vencer em Minas Gerais no segundo turno de 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à etapa decisiva da eleição em desvantagem diante do senador Flávio Bolsonaro (PL).
O resultado do primeiro turno, realizado em 4 de outubro, acendeu um sinal de alerta para a campanha petista. Flávio Bolsonaro terminou a votação no estado com uma vantagem de 4,91 pontos percentuais sobre Lula, o equivalente a aproximadamente 588 mil votos a mais. Os números mostram que a disputa mineira não é apenas uma questão de prestígio político: ela representa um desafio concreto para quem pretende conquistar a Presidência da República.
A eleição será decidida em segundo turno no próximo dia 25 de outubro. Até lá, Minas Gerais deve permanecer entre os principais focos de atenção das duas campanhas, que precisam conquistar eleitores ainda indecisos, convencer quem votou em candidaturas eliminadas e, sobretudo, mobilizar aqueles que não compareceram às urnas.
Os dados do primeiro turno e a análise sobre a distribuição regional dos votos foram publicados pela Folha de S.Paulo em 14 de outubro, com base nos resultados eleitorais.
O estado que historicamente ajuda a antecipar o resultado nacional
A importância de Minas Gerais vai muito além de sua localização geográfica ou de sua influência econômica. Com aproximadamente 16,5 milhões de eleitores aptos a votar, o estado possui o segundo maior colégio eleitoral brasileiro, atrás apenas de São Paulo. Isso significa que uma diferença relativamente pequena entre candidatos pode representar centenas de milhares de votos e alterar o equilíbrio de uma eleição nacional.
Outro elemento que fortalece seu peso político é o histórico eleitoral. Desde a redemocratização, Minas consolidou a reputação de estado-pêndulo: um território em que convivem diferentes correntes ideológicas, interesses econômicos e realidades sociais, muitas vezes reproduzindo tendências observadas no restante do país.
Levantamentos históricos apontam que, desde a eleição presidencial de 1989, o candidato vencedor em Minas Gerais também venceu a disputa nacional em todas as eleições presidenciais realizadas no período, segundo análise publicada pela UBS Brasil em março de 2026.
O histórico não significa que os mineiros determinem automaticamente o resultado nacional. Trata-se de uma correlação histórica, não de uma regra eleitoral. Ainda assim, a coincidência recorrente transformou o estado em uma referência para partidos, consultorias políticas e pesquisadores que procuram identificar tendências do eleitorado brasileiro.
O cientista político Lucas Gelape, professor do departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destacou, em entrevista à Folha de S.Paulo, a capacidade de Minas de refletir movimentos políticos nacionais. A diversidade territorial e social do estado ajuda a explicar essa característica: o comportamento eleitoral de uma região pode ser bastante diferente do observado em outra, exigindo estratégias específicas dos candidatos.
Fontes: Folha de S.Paulo, 14 de outubro de 2026; UBS Brasil, 2 de março de 2026.
A virada de 2026 e o desafio para Lula
O resultado atual contrasta com a eleição de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro em Minas Gerais por uma diferença de aproximadamente 50 mil votos no segundo turno. Naquele pleito, o desempenho mineiro foi um dos componentes importantes da vitória nacional do petista.
Quatro anos depois, a situação mudou. No primeiro turno de 2026, Flávio Bolsonaro conseguiu abrir uma vantagem significativa e avançar sobre áreas importantes do eleitorado mineiro.
De acordo com os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgados pela Folha, Lula venceu em 452 municípios, enquanto Flávio liderou em 401. A diferença no número de municípios, entretanto, não se traduziu em vantagem no total de votos.
A explicação está na concentração populacional. Flávio Bolsonaro conquistou resultados favoráveis em grandes centros urbanos, onde a quantidade de eleitores pode superar, com folga, a de dezenas de municípios menores somados.
O senador também ficou à frente de Lula em nove dos dez maiores colégios eleitorais mineiros. Entre as cidades citadas na análise estão Belo Horizonte, Uberlândia, Ribeirão das Neves e Montes Claros.
O dado demonstra por que a campanha petista não pode se limitar a contabilizar o número de municípios em que venceu. Para recuperar terreno, será necessário ampliar sua votação nas regiões mais populosas, sem perder a sustentação em áreas nas quais o partido historicamente apresenta desempenho competitivo.
A mudança também evidencia que o eleitorado mineiro não pode ser tratado como um bloco homogêneo. Uma estratégia capaz de produzir resultados no Norte de Minas, no Vale do Jequitinhonha ou na Zona da Mata pode não apresentar o mesmo efeito no Triângulo Mineiro ou na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Fonte: Folha de S.Paulo, “Abstenção alta e grandes cidades desafiam Lula em MG, que deu vantagem a Flávio no 1º turno”, 14 de outubro de 2026.
Mais de 3,7 milhões de ausentes: o eleitor que pode fazer diferença
Se a distribuição dos votos representa um desafio para Lula, a abstenção constitui outro ponto central da disputa.
No primeiro turno, Minas Gerais registrou uma taxa de abstenção de 22,81%, segundo os dados citados pela Folha de S.Paulo. Isso corresponde a mais de 3,7 milhões de eleitores que deixaram de comparecer às urnas.
O índice ficou acima da média nacional e ganhou relevância porque a ausência não se distribuiu de maneira uniforme pelo território mineiro. Das dez cidades com as maiores taxas de abstenção no país, oito eram mineiras, e as três primeiras estavam no Alto Vale do Jequitinhonha, região em que o PT possui presença eleitoral histórica.
A dimensão desse contingente desperta o interesse das campanhas, mas exige uma interpretação cuidadosa. Não é possível presumir que os eleitores ausentes sejam, em sua maioria, apoiadores de Lula ou de Flávio. Tampouco se pode afirmar que o retorno de todos eles às urnas favoreceria automaticamente um dos candidatos.
O desafio cons

