Deputado do PT que combate a escala 6×1 é processado por ex-motorista que relata jornadas de até 16 horas

Parlamentar nega irregularidades; ação trabalhista de quase R$ 400 mil ainda será julgada pela Justiça.

Enquanto defende publicamente o fim da escala 6×1 e uma redução da jornada de trabalho no Brasil, o deputado federal Kiko Celeguim (PT-SP), presidente estadual do Partido dos Trabalhadores em São Paulo, enfrenta uma ação trabalhista movida por um ex-motorista que o acusa justamente de impor uma rotina de trabalho considerada exaustiva.

Segundo a ação, o ex-funcionário afirma ter trabalhado para o parlamentar entre agosto de 2022 e janeiro de 2025, cumprindo jornadas que chegariam a 16 horas diárias — das 6h às 22h —, muitas vezes sem folga semanal e sem intervalo para almoço. O trabalhador também sustenta que nunca teve a carteira de trabalho assinada durante o período.

Com base nessas alegações, a ação pede o reconhecimento do vínculo empregatício, pagamento de horas extras, férias, FGTS, verbas rescisórias e demais direitos previstos na legislação trabalhista. O valor atribuído à causa é de aproximadamente R$ 395 mil.

O processo segue em tramitação na Justiça do Trabalho e ainda não houve julgamento do mérito das alegações. Uma tentativa de conciliação não resultou em acordo, mantendo o litígio em andamento.

Outro ponto que chamou atenção foi o pedido da defesa do deputado para que o processo tramitasse em segredo de Justiça. Até o momento, porém, as alegações do ex-motorista continuam sujeitas à análise judicial, sem qualquer conclusão definitiva sobre sua veracidade.

Discurso sob pressão

O caso ganhou repercussão justamente pela aparente contradição entre o discurso público e as acusações apresentadas na Justiça.

Kiko Celeguim tornou-se um dos defensores da revisão da jornada de trabalho no país e da extinção da escala 6×1, argumentando que o trabalhador brasileiro merece mais qualidade de vida e melhores condições laborais.

Caso as alegações do ex-motorista venham a ser confirmadas pela Justiça, o episódio poderá representar um desgaste político significativo, reforçando críticas recorrentes de que parte da classe política cobra dos demais padrões que nem sempre observaria em suas próprias relações de trabalho. Por outro lado, se as acusações forem rejeitadas, caberá ao Judiciário esclarecer definitivamente os fatos.

Até lá, permanece um contraste inevitável: um parlamentar que construiu parte de sua imagem pública defendendo jornadas mais humanas agora precisa responder, na Justiça, a acusações de ter exigido exatamente o oposto de um ex-colaborador.

A defesa do deputado nega as irregularidades apontadas na ação. O processo segue em curso e ainda não há decisão judicial sobre o mérito das alegações.

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