Vacina AstraZeneca: quais são os efeitos colaterais, o que é raro e o que dizem especialistas

Imunizante contra a Covid-19 apresentou reações geralmente leves e temporárias, mas autoridades sanitárias identificaram eventos adversos graves e muito raros, como a síndrome de trombose com trombocitopenia

A vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca foi um dos principais imunizantes utilizados durante a pandemia e também esteve no centro de discussões sobre efeitos adversos raros. Entre as reações mais frequentes estão dor no local da aplicação, dor de cabeça, cansaço, febre, dores musculares e nas articulações. Na grande maioria dos casos, esses sintomas são leves ou moderados e desaparecem espontaneamente em poucos dias.

O principal evento adverso grave associado especificamente à vacina foi a síndrome de trombose com trombocitopenia (STT ou TTS, na sigla em inglês), uma condição extremamente rara em que ocorre simultaneamente a formação de coágulos sanguíneos e uma redução da quantidade de plaquetas, células importantes para a coagulação. A associação foi reconhecida pelas autoridades sanitárias internacionais depois que casos começaram a ser identificados em 2021.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e autoridades brasileiras ressaltaram, entretanto, que se tratava de um evento muito raro e que, no contexto da pandemia, os benefícios da vacinação superavam os riscos conhecidos.

O que é a síndrome de trombose com trombocitopenia?

A STT não é simplesmente uma “trombose comum”. Ela apresenta uma combinação característica: formação de trombos em vasos sanguíneos e queda significativa das plaquetas.

O Ministério da Saúde explicou que os primeiros casos associados às vacinas de vetor viral foram observados principalmente nas semanas seguintes à vacinação. Os eventos podiam atingir vasos em locais incomuns, incluindo os seios venosos cerebrais, além de veias abdominais, pulmões e artérias.

Segundo uma nota técnica do Ministério da Saúde, os casos identificados inicialmente ocorreram predominantemente entre quatro e 20 dias depois da vacinação. A estimativa inicial para a vacina Oxford/AstraZeneca era de aproximadamente 1 a 8 casos por milhão de indivíduos após a primeira dose, dependendo da população e dos critérios utilizados para identificação.

A OMS também classificou a TTS como um evento adverso muito raro. Um documento técnico da organização chegou a estimar o risco em aproximadamente um caso para cada 100 mil vacinações, embora as estimativas variassem conforme país, período e metodologia de vigilância.

Por que a trombose acontece?

O mecanismo identificado é diferente daquele das tromboses mais comuns.

Pesquisadores associaram a síndrome à formação de anticorpos contra o chamado fator plaquetário 4 (PF4). Esses anticorpos podem ativar as plaquetas e desencadear uma reação de coagulação anormal, consumindo plaquetas ao mesmo tempo em que favorecem a formação de coágulos.

“Esse efeito adverso não é nenhuma novidade. Nós já tínhamos essas informações muito bem caracterizadas e é uma condição que não tem relação com a trombose habitual”, explicou Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), em entrevista à CNN Brasil. Segundo o especialista, o mecanismo está relacionado à produção de anticorpos antiplaquetários, incluindo os anticorpos contra o PF4.

A descoberta desse mecanismo foi importante porque permitiu aos médicos diferenciar a síndrome de outras formas de trombose e estabelecer protocolos específicos de diagnóstico e tratamento.

Quais eram os efeitos colaterais mais comuns?

Os efeitos adversos mais frequentes da Vaxzevria, nome comercial da vacina da AstraZeneca em diversos mercados, eram semelhantes aos observados com outras vacinas e geralmente temporários.

Entre os sintomas descritos pelas autoridades sanitárias estão:

  • dor, sensibilidade, calor, coceira ou hematoma no local da aplicação;
  • dor de cabeça;
  • cansaço;
  • dores musculares;
  • dores nas articulações;
  • febre;
  • calafrios;
  • náusea;
  • mal-estar;
  • fraqueza;
  • sintomas semelhantes aos de uma gripe.

A EMA classificou a maior parte dessas reações como leves ou moderadas. Segundo dados reunidos pela CNN Brasil a partir das informações regulatórias, dor no local da aplicação, dor de cabeça, cansaço, dores musculares, febre, dores nas articulações e náusea estavam entre as reações observadas com maior frequência.

Em estudos iniciais, as reações sistêmicas também foram bastante frequentes. Dados apresentados pelo Instituto Butantan, com base em estudo publicado na The Lancet, mostraram que fadiga, dor de cabeça, febre e mialgia estavam entre as principais reações relatadas após a vacinação com a AstraZeneca/Oxford.

Efeitos graves eram muito mais raros

É importante separar efeito colateral comum de evento adverso grave e raro.

A grande maioria das pessoas que apresentava dor de cabeça, febre ou cansaço após a aplicação não desenvolvia uma complicação grave. Esses sintomas faziam parte da resposta imunológica esperada e, normalmente, desapareciam em poucos dias.

O sinal que mais chamou a atenção das autoridades foi a combinação de trombose e plaquetas baixas. A EMA confirmou uma possível relação entre a vacina e casos muito raros dessa condição e recomendou que ela fosse incluída nas informações de segurança do produto.

A agência europeia também deixou claro que a vacina não estava associada a um aumento geral do risco de distúrbios de coagulação. O problema identificado era um evento específico, extremamente raro, e não um aumento indiscriminado de todas as formas de trombose.

Síndrome de Guillain-Barré também foi identificada

Outro evento neurológico raro relacionado à vacina foi a síndrome de Guillain-Barré (SGB).

A doença ocorre quando o sistema imunológico ataca estruturas do sistema nervoso periférico. Pode provocar formigamento, fraqueza muscular e, em casos graves, paralisia.

Autoridades britânicas incluíram a síndrome de Guillain-Barré como efeito adverso muito raro da vacina AstraZeneca em 2021.

Isso não significa que qualquer formigamento depois da vacinação seja Guillain-Barré. O diagnóstico depende de avaliação médica e de características clínicas específicas.

Quais sintomas exigem atendimento médico?

Durante o período em que a vacina estava sendo utilizada, as autoridades recomendaram atenção especial a determinados sintomas que poderiam indicar um evento adverso grave.

Entre os sinais de alerta estavam:

  • dor de cabeça intensa ou persistente;
  • alterações ou turvação da visão;
  • falta de ar;
  • dor no peito;
  • inchaço ou dor persistente em uma perna;
  • dor abdominal intensa ou persistente;
  • surgimento de hematomas incomuns;
  • pequenas manchas vermelhas ou arroxeadas na pele, chamadas petéquias;
  • fraqueza progressiva nos braços ou pernas;
  • dificuldade para caminhar;
  • sintomas neurológicos progressivos.

A recomendação era procurar atendimento médico, especialmente quando os sintomas aparecessem nos primeiros dias ou semanas após a vacinação. O Ministério da Saúde destacou que a identificação rápida de uma eventual TTS era fundamental para o tratamento adequado.

O risco era maior do que o benefício?

Não, segundo as principais autoridades sanitárias que avaliaram o imunizante durante a pandemia.

A EMA concluiu que os benefícios da vacina continuavam superiores aos riscos, mesmo após reconhecer a possibilidade de ocorrência da síndrome de trombose com trombocitopenia.

A OMS também manteve uma avaliação positiva da relação benefício-risco. O comitê global de segurança de vacinas da organização afirmou que a vacina apresentava um perfil de benefício-risco favorável, considerando sua capacidade de reduzir casos graves e mortes por Covid-19.

No Brasil, o Ministério da Saúde igualmente registrou que os benefícios da vacina Oxford/AstraZeneca, na situação epidemiológica daquele período, superavam em muito os riscos potenciais associados à TTS.

A Fiocruz, responsável pela produção nacional da vacina, também afirmou que os benefícios da imunização na prevenção de hospitalizações e mortes superavam os riscos extremamente raros de trombose associada à queda das plaquetas.

Isso significa que a vacina era “perigosa”?

Especialistas e autoridades sanitárias fazem uma distinção importante.

Reconhecer um efeito adverso não significa considerar uma vacina insegura.

Vacinas, como qualquer medicamento, podem provocar eventos adversos. O trabalho da farmacovigilância é justamente identificar esses eventos, estimar sua frequência, determinar quem apresenta maior risco e atualizar as recomendações quando necessário.

Foi o que aconteceu com a AstraZeneca: depois dos primeiros relatos, os sistemas internacionais de vigilância identificaram o padrão de trombose associado à trombocitopenia, estudaram o mecanismo e incluíram a informação nas bulas e recomendações médicas.

O episódio é considerado um exemplo de farmacovigilância durante uma campanha de vacinação em massa.

A AstraZeneca deixou de ser utilizada?

A situação da vacina mudou posteriormente com a evolução da pandemia e a disponibilidade de novas vacinas.

Em 2024, a AstraZeneca anunciou a retirada da Vaxzevria dos mercados, citando a redução da demanda e a disponibilidade de vacinas mais atualizadas contra as variantes do coronavírus. A empresa afirmou que a vacina já não era fabricada nem fornecida.

A retirada comercial, portanto, não deve ser interpretada automaticamente como uma decisão regulatória de que a vacina teria sido considerada inadequada ou que todas as pessoas que receberam o imunizante desenvolveriam efeitos adversos.

Quem tomou AstraZeneca anos atrás deve se preocupar?

A existência de um evento adverso raro não significa que pessoas vacinadas anos atrás estejam continuamente expostas ao mesmo risco.

A TTS associada às vacinas de vetor adenoviral foi observada predominantemente no período próximo à vacinação, principalmente nas primeiras semanas. O Ministério da Saúde descreveu a janela de maior atenção como os primeiros 28 dias, com maior concentração de casos entre quatro e 20 dias.

Por isso, não é correto afirmar que uma pessoa vacinada com AstraZeneca em 2021 ou 2022 esteja atualmente desenvolvendo TTS simplesmente por ter recebido aquela vacina no passado.

Também não há fundamento para atribuir automaticamente qualquer problema de saúde ocorrido anos depois à vacinação sem investigação médica e epidemiológica.

E os casos de pessoas que morreram?

Houve casos graves e mortes associados a eventos adversos após vacinação, inclusive no contexto da TTS. Isso precisa ser reconhecido sem minimizar a gravidade dessas ocorrências.

Ao mesmo tempo, é necessário diferenciar “morte depois da vacinação” de “morte causada pela vacina”. Sistemas de farmacovigilância investigam justamente essa diferença.

A Fiocruz, por exemplo, acompanhou em 2021 um caso grave ocorrido no Rio de Janeiro e afirmou que, naquele momento, ainda não havia confirmação de relação causal com a vacina. A instituição informou que a investigação era realizada pelas autoridades sanitárias.

Essa distinção é fundamental em qualquer análise jornalística sobre segurança de vacinas: um evento temporalmente posterior à vacinação não prova, sozinho, causalidade.

O que dizem os especialistas?

A avaliação predominante de especialistas e organismos reguladores é que os eventos graves associados à AstraZeneca são reais, mas muito raros.

Renato Kfouri, da SBIm, destacou que a TTS possui características próprias e está relacionada a um mecanismo imunológico específico, envolvendo anticorpos contra o PF4.

A OMS e a EMA chegaram a conclusões semelhantes sobre a raridade do evento e mantiveram, durante a fase crítica da pandemia, a avaliação de que os benefícios da vacinação eram superiores aos riscos.

A experiência também mostrou a importância de sistemas de farmacovigilância capazes de identificar efeitos que podem ser extremamente raros e que, justamente por sua baixa frequência, dificilmente seriam detectados antes da utilização de milhões de doses.

O que é fato e o que é exagero?

É fato: a vacina AstraZeneca foi associada a um risco muito raro de síndrome de trombose com trombocitopenia.

É fato: a síndrome pode ser grave e, em alguns casos, fatal.

É fato: a síndrome de Guillain-Barré foi reconhecida como um evento adverso muito raro associado à vacina.

É fato: dor, febre, cansaço, dor de cabeça e dores musculares estavam entre as reações mais comuns e geralmente eram temporárias.

É enganoso: dizer que toda pessoa que tomou AstraZeneca corre risco de desenvolver trombose atualmente.

É enganoso: afirmar que qualquer problema de saúde ocorrido depois da vacinação foi necessariamente provocado pela vacina.

Também é incorreto: dizer que a AstraZeneca não apresentou nenhum efeito adverso grave. As próprias autoridades regulatórias reconheceram a TTS e outros eventos raros.

A principal conclusão

A história da AstraZeneca mostra duas coisas que podem parecer contraditórias, mas não são: a vacina apresentou efeitos adversos graves e muito raros, e, ao mesmo tempo, foi considerada segura e com benefício superior ao risco no contexto em que foi utilizada em larga escala durante a pandemia.

A identificação da TTS não foi ignorada pelas autoridades. Pelo contrário: a síndrome foi investigada, seu mecanismo foi estudado, as informações de segurança foram atualizadas e recomendações foram modificadas conforme surgiram novos dados.

Para quem recebeu a vacina no passado, a existência desses eventos raros não significa que haverá necessariamente uma consequência tardia. Para quem apresenta sintomas persistentes ou sinais compatíveis com trombose ou alterações neurológicas, a conduta adequada é procurar avaliação médica, em vez de tentar estabelecer sozinho uma relação de causa e efeito.

Em resumo: a AstraZeneca não foi isenta de riscos — nenhum medicamento é. O principal evento adverso grave identificado foi extremamente raro, enquanto as reações mais comuns eram leves e transitórias. A avaliação das autoridades sanitárias durante a pandemia foi de que os benefícios da vacinação, especialmente na prevenção de formas graves da Covid-19, superavam amplamente esses riscos.

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