Mais de 1,5 milhão aguardaram perícia do INSS em 2025 e início de 2026; demora deixou segurados sem renda

Fila da perícia médica chegou a 1,61 milhão de pessoas em dezembro de 2025. Dados oficiais mostram redução nos meses seguintes, mas relatos de segurados revelam o impacto da demora para quem depende do benefício para sobreviver.

A espera por uma perícia médica do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) se transformou, nos últimos anos, em um dos principais gargalos para trabalhadores que precisam de benefícios por incapacidade.

Dados oficiais da Previdência Social mostram que o estoque de pessoas aguardando atendimento de perícia médica presencial chegou a 1,610 milhão em dezembro de 2025. Em janeiro de 2026, eram aproximadamente 1,515 milhão. Em fevereiro, o número havia recuado para 1,467 milhão.

Os números mostram a dimensão do problema: mesmo com a redução registrada no início de 2026, durante meses mais de 1,5 milhão de segurados permaneceram no sistema à espera de uma avaliação necessária para a análise de benefícios por incapacidade.

A perícia é fundamental, por exemplo, para a concessão do auxílio por incapacidade temporária, antigo auxílio-doença. Segundo o próprio INSS, o benefício é destinado ao segurado que comprovar, por meio de perícia médica, estar temporariamente incapaz de exercer seu trabalho ou atividade habitual por período superior a 15 dias consecutivos.

Para quem espera, o problema não é apenas burocrático

Por trás dos números estão trabalhadores que, em muitos casos, deixam de ter uma fonte regular de renda enquanto aguardam uma decisão.

Um levantamento publicado pelo UOL mostrou relatos de segurados que enfrentaram meses de espera.

O servente de pedreiro Francisco Pereira, de 37 anos, relatou que estava havia meses sem receber integralmente o valor a que tinha direito e afirmou que não poderia retornar ao trabalho antes da perícia.

Em outro caso, a assistente de laboratório Ana Carolina da Cruz, de Salvador, contou que uma nova perícia foi adiada e que chegou a esperar quase sete meses. Segundo ela, a situação financeira ficou extremamente difícil e ela passou a depender da ajuda do namorado para despesas básicas.

Em Mato Grosso do Sul, outro segurado identificado como João também relatou dificuldades provocadas pela demora. Após sofrer um acidente grave, ele teve a perícia remarcada duas vezes por causa da ausência do médico perito. Sem conseguir trabalhar e sem receber o benefício, afirmou que precisou contar com a ajuda de familiares.

O caso também chamou atenção pelo custo provocado pelas remarcações. Segundo João, ele chegou a gastar dinheiro com transporte para comparecer ao atendimento que acabou não sendo realizado.

Governo diz que fila diminuiu

O cenário, entretanto, mudou ao longo de 2026.

Em agosto, o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, afirmou que a fila de pedidos represados do INSS havia caído para 374 mil processos com mais de 45 dias de espera. Segundo o ministro, o estoque total de requerimentos estava abaixo de 1,5 milhão, mas esse número inclui o fluxo normal de novos pedidos que entram mensalmente no sistema.

Ainda segundo Queiroz, a fila específica de perícias médicas, que havia chegado a 1,230 milhão em novembro, estava em cerca de 248 mil pedidos naquele momento. O governo prevê que o represamento acima de 45 dias seja zerado entre setembro e outubro.

A Previdência também vem adotando medidas para acelerar os atendimentos, entre elas mutirões e a ampliação da perícia conectada, modalidade realizada por videoconferência. Em julho, o Ministério da Previdência anunciou um mutirão com 17,8 mil vagas em 19 estados.

Também foram anunciadas antecipações de atendimentos em diferentes municípios, com possibilidade de o segurado solicitar a antecipação pelo Meu INSS ou pela Central 135.

Reclamações mostram que o problema vai além da estatística

A redução da fila é um sinal positivo, mas o histórico recente mostra que o problema não pode ser analisado apenas pelo número absoluto de processos.

Para quem está doente, incapacitado para trabalhar ou sem outra fonte de renda, 45, 60 ou 90 dias de espera podem representar uma crise financeira completa.

A própria documentação oficial do INSS reconhece que benefícios por incapacidade estão entre os processos que dependem de etapas que não podem ser integralmente automatizadas, especialmente a perícia médica. O órgão também aponta o crescimento da demanda e limitações de capacidade como fatores que contribuíram para o acúmulo de processos.

Análise do Hora Notícias

A redução da fila deve ser reconhecida, mas não pode apagar o impacto causado pelo período em que milhares — e, em determinados momentos, mais de 1,5 milhão — de brasileiros ficaram à espera de uma perícia.

Não se trata apenas de uma fila administrativa. Trata-se de pessoas que, muitas vezes, precisam do benefício justamente porque estão doentes ou incapacitadas para trabalhar.

O desafio do poder público é fazer com que a perícia deixe de ser um gargalo recorrente. Mutirões, telemedicina e antecipações podem ajudar, mas uma solução definitiva exige capacidade permanente de atendimento, planejamento e transparência sobre o tempo real de espera.

Também é fundamental que a redução dos estoques não seja medida apenas pela quantidade de processos retirados da fila, mas pela capacidade de garantir que o segurado receba uma resposta correta e em prazo razoável.

A queda recente dos números é uma boa notícia. Mas, para quem passou meses esperando sem saber quando poderia voltar a receber um benefício ou retornar ao trabalho, a estatística não conta toda a história.

O que dizem os números

  • Dezembro de 2025: 1,610 milhão aguardando perícia médica presencial;
  • Janeiro de 2026: 1,514,8 milhão;
  • Fevereiro de 2026: 1,466,7 milhão;
  • Agosto de 2026: governo informou fila específica da perícia em aproximadamente 248 mil pedidos;
  • Agosto de 2026: 374 mil requerimentos estavam represados há mais de 45 dias, segundo o ministro da Previdência.

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