Caso Banco Master: PF identifica repasses de R$ 33 milhões a escritório de advogada e amplia apuração sobre possível lavagem de dinheiro

Documentos de auditoria encontrados pela Polícia Federal apontam pagamentos feitos pelo Banco Master ao escritório da advogada Dalide Barbosa Alves Corrêa em 2024; registros também mencionam outros pagamentos milionários e levantam dúvidas sobre a natureza e a efetiva prestação dos serviços

A investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master ganhou um novo capítulo com a identificação de R$ 33 milhões pagos, em 2024, pelo banco ao escritório da advogada Dalide Barbosa Alves Corrêa. Os valores aparecem em documentos de uma auditoria interna realizada pelo Banco de Brasília (BRB) sobre a operação envolvendo o Master e que foram encontrados pelos investigadores.

O caso passou a chamar atenção também porque, segundo os documentos divulgados, a advogada é mencionada em conversas de integrantes da instituição financeira como uma espécie de “canal direto com o STF”. A expressão, porém, consta de diálogos investigados e não constitui, por si só, prova de que a profissional tenha exercido influência sobre ministros ou decisões da Corte.

A PF ainda não concluiu que os R$ 33 milhões tenham origem criminosa ou que o escritório tenha participado de um esquema de lavagem de dinheiro. Segundo as informações disponíveis, a investigação ainda precisa esclarecer a natureza dos contratos, os serviços efetivamente prestados e a finalidade dos pagamentos.

O que chamou a atenção dos investigadores

O principal ponto sob análise é a dimensão dos pagamentos e a necessidade de verificar se existe correspondência entre os valores desembolsados pelo banco e os serviços jurídicos efetivamente realizados.

A legislação e as normas da Ordem dos Advogados do Brasil não proíbem, por si só, contratos de honorários de valores elevados. O Provimento 204/2021 do Conselho Federal da OAB estabelece mecanismos para comprovar a prestação de serviços advocatícios e prevê que, em serviços consultivos, podem ser utilizados contrato de honorários e declaração com informações como período de prestação, preço, advogados envolvidos e identificação do procedimento ou área jurídica relacionada.

Por isso, uma das questões centrais para os investigadores é saber exatamente quais atividades justificaram os R$ 33 milhões.

A existência de um pagamento elevado, isoladamente, não demonstra lavagem de dinheiro. Para caracterizar esse tipo de crime, é necessário estabelecer, entre outros elementos, a origem ilícita dos recursos e a existência de atos destinados a ocultar ou dissimular essa origem ou sua movimentação.

Quem é Dalide Corrêa

Dalide Barbosa Alves Corrêa é advogada e teve passagem por funções relacionadas ao gabinete do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

O nome dela aparece agora no contexto da investigação sobre os pagamentos feitos pelo Banco Master. De acordo com informações divulgadas a partir dos documentos encontrados pela PF, integrantes do banco associaram a advogada à expressão “canal direto com o STF”.

A própria Dalide Corrêa nega ter atuado para o Banco Master no STF e afirma que jamais procurou ministros da Corte para tratar de assuntos relacionados ao banco.

Essa versão é importante porque uma das questões que a investigação precisa esclarecer é justamente qual era o objeto concreto da relação profissional entre o escritório e o banco.

Auditoria do BRB é peça importante da investigação

Os documentos que revelaram os pagamentos fazem parte de uma auditoria interna realizada pelo BRB no contexto da operação envolvendo o Banco Master.

O BRB chegou a negociar a aquisição de ativos do Master, operação que posteriormente se tornou um dos principais focos das investigações. A PF passou a analisar documentos, contratos, comunicações internas e movimentações financeiras relacionadas às operações entre as instituições.

O caso Master já produziu uma extensa investigação criminal. A Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, apura suspeitas envolvendo fraudes financeiras, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades relacionadas a operações no sistema financeiro.

O contexto: bilhões em operações sob investigação

O pagamento de R$ 33 milhões precisa ser compreendido dentro de uma investigação muito maior.

A PF sustenta que existia uma estrutura complexa de operações envolvendo o Banco Master e outras empresas e instituições. Entre os pontos investigados estão operações com carteiras de crédito consideradas fraudulentas ou fictícias.

Em uma das frentes mais relevantes da apuração, a PF apontou que aproximadamente R$ 12,2 bilhões em Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) consideradas falsas teriam sido adquiridos pelo BRB, com prejuízo estimado em cerca de R$ 5 bilhões, segundo informações divulgadas a partir do inquérito. A defesa do ex-sócio do Master Augusto Lima contesta as acusações e afirma que não existem provas que sustentem sua participação.

A dimensão financeira da investigação é muito superior, portanto, aos R$ 33 milhões agora associados ao escritório de advocacia.

Em maio, a Agência Brasil informou que, após seis fases da operação, a Justiça havia autorizado bloqueios e sequestros de bens em aproximadamente R$ 27,7 bilhões, além de dezenas de prisões e mais de uma centena de mandados de busca e apreensão.

Outros pagamentos também aparecem nos documentos

Os mesmos registros de auditoria mencionam outros pagamentos expressivos realizados pelo Banco Master em 2024.

Entre eles estão R$ 40 milhões destinados ao escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do STF. A informação consta das reportagens que analisaram os documentos encontrados pela PF.

A existência desses pagamentos também não significa, automaticamente, irregularidade. O que está sob análise é a natureza dos contratos, a efetiva prestação dos serviços, a origem dos recursos e a finalidade econômica das operações.

O tema ganhou ainda maior repercussão porque o caso Master passou a envolver documentos e diálogos relacionados a diferentes integrantes do STF e pessoas próximas a ministros. O próprio Supremo informou que a Petição 16.662, relacionada a relatório produzido pela PF a partir de dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, está sob análise da Corte. O mérito da questão, contudo, não foi examinado pelo plenário na sessão de 15 de setembro, após pedido de vista do ministro Flávio Dino.

O que a PF ainda precisa descobrir

Para transformar uma suspeita financeira em uma acusação criminal consistente, os investigadores precisam reconstruir a trajetória do dinheiro.

Entre as perguntas que podem orientar essa etapa estão:

  • Qual era o objeto dos contratos entre o Master e o escritório?
  • Quais serviços foram efetivamente prestados?
  • Quem autorizou os pagamentos dentro do banco?
  • Os valores foram compatíveis com os serviços contratados?
  • De quais contas saíram os recursos?
  • Qual era a origem econômica dos valores?
  • Houve transferência posterior dos recursos para outras pessoas ou empresas?
  • Existiram intermediários?
  • Os pagamentos estavam relacionados a processos judiciais ou atividades consultivas?
  • Houve alguma tentativa de ocultar a origem ou o destino dos recursos?
  • Os contratos foram formalizados antes da realização dos pagamentos?
  • Havia justificativa empresarial e contábil para os desembolsos?

A resposta a essas perguntas é que poderá determinar se os pagamentos foram honorários profissionais legítimos, operações financeiras atípicas ou parte de uma estrutura destinada à ocultação de recursos.

Especialista: valor alto não basta para caracterizar lavagem

O professor Fabio Coimbra, da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), especialista em regulação e supervisão do sistema financeiro e ex-integrante do Banco Central, vem apontando que o episódio Master expõe problemas que ultrapassam uma única operação.

Segundo Coimbra, o caso reforça a necessidade de aperfeiçoamento de mecanismos de governança, gestão de riscos e supervisão financeira. Para ele, a discussão sobre o Master deve considerar não apenas o prejuízo imediato, mas também os incentivos e controles existentes no sistema financeiro.

No caso específico dos pagamentos a escritórios, a análise jurídica precisa fazer uma distinção importante: honorários elevados não são, isoladamente, prova de crime. O elemento decisivo é verificar se houve serviço correspondente e, caso a suspeita seja de lavagem, se os recursos tinham origem ilícita e foram movimentados com a intenção de ocultar ou dissimular essa origem.

O próprio regramento da OAB prevê mecanismos de comprovação da prestação dos serviços, inclusive para atividades consultivas.

Especialista aponta fragilidades de governança

O advogado José Frederico Cimino Manssur, especialista em contratos e estratégias societárias, avaliou anteriormente que o caso Master expôs fragilidades relevantes nos mecanismos de controle interno, governança e supervisão do sistema financeiro.

Na avaliação do especialista, o episódio levanta questionamentos sobre a capacidade dos mecanismos de monitoramento de identificar estruturas complexas e operações que, formalmente, podem aparentar regularidade.

Esse aspecto é particularmente relevante para a investigação atual: uma operação financeira pode possuir documentação formal e, ainda assim, precisar ser analisada quanto à sua finalidade econômica real.

O que é lavagem de dinheiro

A lavagem de dinheiro ocorre quando alguém pratica atos destinados a ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes de infração penal.

No contexto do caso Master, a hipótese investigada pela PF é que determinadas operações financeiras possam ter sido utilizadas para movimentar ou ocultar recursos cuja origem seria ilícita.

Isso não significa que toda movimentação considerada suspeita seja lavagem de dinheiro.

É preciso estabelecer uma cadeia probatória: origem do recurso → operação utilizada → beneficiário → finalidade → eventual tentativa de ocultação ou dissimulação.

É justamente essa cadeia que as investigações procuram reconstruir.

Caso também envolve suspeitas sobre funcionários e operações bancárias

A investigação não está limitada a pagamentos feitos a escritórios de advocacia.

A PF também investiga a atuação de pessoas ligadas ao Banco Master, ao BRB e a outras empresas que aparecem nas operações financeiras.

Em depoimento prestado em agosto, Daniel Vorcaro negou ter oferecido vantagens ilícitas a servidores do Banco Central e afirmou que suas interações com integrantes da autoridade monetária ocorreram no contexto institucional das negociações e processos de supervisão envolvendo o Master. Ele também negou participação direta em determinadas operações imobiliárias envolvendo servidores.

As declarações fazem parte do conjunto de versões que precisam ser confrontadas com documentos, mensagens, registros bancários e demais provas.

PF também investiga possíveis conexões externas

A amplitude da apuração aumentou nos últimos meses.

Em setembro, o ministro Flávio Dino determinou que a Polícia Federal investigasse relações entre o grupo ligado ao Banco Master e empresas concessionárias de cemitérios em São Paulo.

Segundo as informações divulgadas sobre a decisão, empresas ligadas a Vorcaro teriam utilizado ações de uma concessionária como garantia para empréstimos de R$ 78 milhões concedidos pelo Master. Parte dos recursos teria passado por holdings sediadas nas Ilhas Cayman.

Essa frente é independente do pagamento de R$ 33 milhões ao escritório de Dalide Corrêa, mas demonstra a amplitude das diligências destinadas a reconstruir a movimentação patrimonial e financeira relacionada ao grupo.

Crise ultrapassou o banco e chegou ao STF

O caso Master passou a ter também uma dimensão institucional.

Dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro foram entregues pela PF a ministros do STF. O material contém mensagens e diálogos que envolvem autoridades e pessoas próximas a integrantes da Corte.

Nesta semana, os ministros Luiz Fux e André Mendonça receberam a íntegra dos dados extraídos do aparelho. Outros ministros também tiveram acesso ao material.

O Supremo discute ainda questões relacionadas ao sigilo e ao compartilhamento das informações. Em 15 de setembro, o plenário suspendeu a análise conjunta de petições relacionadas ao caso após pedido de vista de Flávio Dino. O tribunal destacou que o mérito das acusações não havia sido analisado naquela sessão.

Por que o pagamento de R$ 33 milhões é relevante

O valor chama atenção principalmente por três motivos.

Primeiro, pelo tamanho da quantia: R$ 33 milhões em um único ano representam um desembolso expressivo para qualquer instituição.

Segundo, porque o pagamento aparece em uma auditoria produzida no contexto de uma operação financeira que já é alvo de investigação criminal.

Terceiro, porque os documentos associam o escritório a uma descrição feita por integrantes do próprio banco sobre suposto acesso ao STF — alegação que precisa ser comprovada e que é negada pela advogada.

Por isso, o ponto central da investigação não é simplesmente descobrir “quanto foi pago”, mas determinar “por que foi pago, por qual serviço, a quem beneficiou e qual foi a origem e o destino dos recursos”.

O que dizem os envolvidos

Dalide Corrêa: segundo informações divulgadas sobre o caso, nega ter atuado para o Banco Master no STF e afirma que não procurou ministros da Corte para tratar de assuntos relacionados ao banco.

Daniel Vorcaro: em depoimento à PF, negou oferecer vantagens ilícitas a servidores do Banco Central e afirmou que suas relações com os agentes públicos estavam relacionadas às atividades institucionais do banco.

Defesas de outros investigados: têm contestado diferentes acusações formuladas pela PF e sustentado que contratos e operações apontados como suspeitos possuíam justificativas comerciais ou não eram de responsabilidade dos acusados. No caso de Augusto Lima, por exemplo, a defesa nega a participação descrita pela PF nas operações envolvendo carteiras de crédito.

Investigação ainda está em andamento

Apesar do volume de documentos e informações já obtidos, não há, até o momento, conclusão definitiva de que os R$ 33 milhões tenham sido utilizados para lavagem de dinheiro.

A PF precisa avançar na análise documental, financeira e patrimonial para determinar se houve crime e, em caso positivo, quem teria participado da eventual operação.

O princípio constitucional da presunção de inocência também se aplica aos investigados: ser citado em documentos, ter recebido pagamentos ou aparecer em diálogos investigados não equivale a uma condenação criminal.

O caso continua sob investigação e novas diligências podem modificar o quadro conhecido atualmente.

Em resumo

R$ 33 milhões — valor identificado em pagamentos feitos pelo Banco Master, em 2024, ao escritório da advogada Dalide Corrêa.

Documento — os registros fazem parte de auditoria interna do BRB encontrada pela Polícia Federal.

Ponto de investigação — PF busca esclarecer a natureza dos contratos, os serviços prestados, a origem e o destino dos recursos.

“Canal direto com o STF” — expressão aparece em conversas de integrantes do Master sobre a advogada; a descrição não comprova influência sobre ministros.

Versão da advogada — ela nega ter atuado para o Master no STF.

Contexto maior — os pagamentos estão inseridos em uma investigação muito mais ampla sobre possíveis fraudes, lavagem de dinheiro, organização criminosa e irregularidades no sistema financeiro.

Situação atual — investigação em andamento, sem conclusão definitiva sobre a legalidade dos R$ 33 milhões ou eventual prática de lavagem de dinheiro.

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