Justiça dos EUA suspende execução de mulher no Tennessee

A execução de Christa Gail Pike, no estado do Tennessee, foi suspensa em caráter de urgência nesta quarta-feira (30), faltando cerca de uma hora para o horário estabelecido. As testemunhas já estavam a postos na Instituição de Segurança Máxima de Riverbend, em Nashville, por volta das 9h no horário local, quando a ordem judicial interrompeu o procedimento.

Análise de abusos sofridos na infância

A determinação partiu de um tribunal federal de apelações, que acolheu o pedido da defesa para ganhar mais tempo. O objetivo é examinar se os relatos de abusos sexuais e estupros sofridos por Pike durante sua infância foram devidamente levados em conta no momento da sentença.

Caso o procedimento ocorresse, seria a primeira vez em pelo menos 200 anos que uma mulher receberia a pena capital no estado. O defensor público federal adjunto Stephen Ferrell reforçou que a pena de morte aplicada a Pike destoa de outros precedentes jurídicos, uma vez que casos de réus que tinham 18 anos na época do crime tiveram a pena máxima anulada na região. Apesar disso, o governador do estado, Bill Lee, havia recusado o pedido de clemência na última segunda-feira (28).

A condenada, atualmente com 50 anos, reconhece a culpa pelo crime, mas alegava histórico de traumas graves e transtornos mentais. Em documento anexado ao processo de clemência, ela declarou: “Eu era uma jovem de 18 anos com doença mental. Levei muitos anos até mesmo para compreender a gravidade do que havia feito”. Na mesma manifestação, completou: “Levei ainda mais tempo para aceitar quantas vidas eu havia afetado. Tirei a vida do filho, da irmã e da amiga de alguém. Hoje me enoja pensar que eu fui capaz de cometer um crime desses.”

Por outro lado, familiares da vítima aguardavam a conclusão do caso. A mãe da vítima, May Martinez, viajou da Flórida até o Tennessee após receber doações para acompanhar a aplicação da pena. Diante da expectativa pela execução, declarou: “Toda vez que penso nisso, penso em Colleen sentindo aquela dor e tentando se levantar e correr”.

O assassinato de Colleen Slemmer

O assassinato que gerou a condenação aconteceu em 12 de janeiro de 1995, na cidade de Knoxville. Na ocasião, Pike atraiu a colega de curso Colleen Slemmer, de 19 anos, até uma área de mata por acreditar que a jovem tinha interesse em seu namorado. Slemmer foi agredida com golpes de estilete e espancada com um pedaço de asfalto.

O caso ganhou repercussão nacional devido ao contexto do chamado “pânico satânico”, comum entre as décadas de 1980 e 1990. O namorado de Pike na época, Tadaryl Shipp, confessou ter talhado um pentagrama no corpo da vítima. Por ter 17 anos à época dos fatos, ele foi condenado à prisão perpétua com direito a progressão de regime.

Histórico de pena capital feminina nos Estados Unidos

Execuções envolvendo mulheres são extremamente incomuns no sistema carcerário norte-americano. De acordo com dados levantados por Robin M. Maher, diretora-executiva do Death Penalty Information Center, as mulheres representam cerca de 1% do total de execuções realizadas nos Estados Unidos desde 1976, com apenas 18 casos registrados.

Entre as situações mais recentes no país estão a aplicação da pena a Lisa Montgomery pelo governo federal em 2021 — a primeira mulher executada em nível federal em quase 70 anos — e a de Amber McLaughlin em 2023, no Missouri, apontada como a primeira mulher transgênero executada nos Estados Unidos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *