Desastres climáticos já atingiram 6,9 milhões de brasileiros em 1.035 municípios, El Niño acende alerta para falta de água, alimentos e aumento de eventos extremos

Levantamento da Confederação Nacional de Municípios revela mortes, famílias desalojadas e prejuízos bilionários; especialista alerta que mudanças no clima podem comprometer o abastecimento de água, a produção agrícola e a segurança alimentar no Brasil.

O Brasil enfrenta um cenário de crescente preocupação com os impactos dos eventos climáticos extremos. Entre julho e setembro de 2026, aproximadamente 6,9 milhões de brasileiros foram afetados por desastres naturais em 1.035 municípios, segundo levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM). Os dados incluem ocorrências relacionadas a ondas de calor, secas, vendavais e inundações.

O balanço revela a dimensão dos prejuízos provocados pelos fenômenos climáticos. No período analisado, foram registradas 25 mortes, enquanto aproximadamente 87,7 mil pessoas precisaram deixar suas casas. Os danos econômicos chegaram a R$ 12,6 bilhões, atingindo principalmente atividades produtivas, infraestrutura e serviços públicos.

Além dos estragos provocados por tempestades, enchentes e períodos prolongados de estiagem, especialistas demonstram preocupação com os efeitos de um El Niño de forte intensidade previsto para o ciclo climático de 2026 e 2027. A combinação de temperaturas elevadas, chuvas irregulares e pressão sobre os recursos naturais pode ampliar os desafios enfrentados por diferentes regiões brasileiras.

El Niño aumenta preocupação com o clima e a segurança alimentar

O fenômeno El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial apresentam aquecimento anormal, provocando alterações na circulação atmosférica e influenciando os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.

No Brasil, seus efeitos podem variar conforme a região. Enquanto algumas áreas podem enfrentar períodos mais secos e temperaturas acima da média, outras ficam mais suscetíveis a chuvas intensas e eventos extremos.

Em Goiás, a preocupação ganhou destaque após uma nota informativa elaborada por cinco Centros de Excelência do estado, vinculados a instituições como UFG, UEG, PUC Goiás e IF Goiano. As projeções indicam maior probabilidade de temperaturas acima da média e irregularidade das chuvas até o início de 2027.

O cenário preocupa especialmente os setores que dependem diretamente das condições climáticas, como agricultura, pecuária e abastecimento de água. A falta de regularidade das precipitações pode prejudicar o desenvolvimento das lavouras, aumentar os custos de produção e comprometer a disponibilidade de alimentos.

Especialista alerta para risco de falta de água e alimentos

Em entrevista ao Jornal Opção, o engenheiro agrônomo e doutor em Agronomia Antônio Pasqualetto, professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) e do Instituto Federal de Goiás (IFG), destacou que os efeitos das mudanças climáticas precisam ser analisados também pela perspectiva da segurança alimentar e hídrica.

Segundo o especialista, o Brasil possui grande capacidade de produção agrícola, mas isso não significa que toda a população tenha acesso garantido aos alimentos. Problemas de distribuição, desigualdade social, dificuldades logísticas e eventos climáticos podem comprometer o abastecimento.

O professor também chama a atenção para a dependência do transporte rodoviário. Interrupções nas estradas, aumento do preço dos combustíveis e dificuldades de circulação de mercadorias podem provocar elevação dos custos e afetar diretamente o preço dos produtos nos supermercados.

Outro ponto destacado por Pasqualetto é a relação entre a produção agrícola e a disponibilidade de água. A irregularidade das chuvas pode prejudicar as lavouras, reduzir a produtividade e aumentar a pressão sobre os recursos hídricos.

Centro-Oeste também enfrenta desafios com a redução das chuvas

A situação merece atenção especial na região Centro-Oeste, onde a economia depende fortemente do agronegócio e o crescimento populacional aumenta a demanda por água.

Segundo pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) mencionada pelo especialista, a precipitação na região apresenta redução média de 3,7 milímetros por ano, considerando as séries históricas analisadas.

A diminuição das chuvas, quando associada ao aumento do consumo e à expansão das atividades econômicas, pode ampliar a pressão sobre rios, reservatórios e mananciais utilizados no abastecimento das cidades.

Em Goiás, sistemas como o Ribeirão João Leite e o Rio Meia Ponte são importantes para o fornecimento de água à população. A preservação desses recursos e o planejamento do consumo tornam-se fundamentais diante das mudanças nos padrões climáticos.

Pasqualetto considera a segurança hídrica uma questão central, porque a disponibilidade de água influencia diretamente a produção de alimentos, a geração de energia e o funcionamento das atividades econômicas.

Estudo revela dimensão dos desastres relacionados à água no Brasil

A preocupação com os eventos extremos também aparece em uma pesquisa divulgada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O levantamento analisou aproximadamente 60 mil registros oficiais de ocorrências entre 1991 e 2024, incluindo inundações, alagamentos, enxurradas, tempestades, deslizamentos de terra e secas.

Os resultados apontam que esses desastres provocaram pelo menos 4.774 mortes e impactaram diretamente cerca de 129,8 milhões de brasileiros durante o período analisado. Os prejuízos econômicos ultrapassaram R$ 740 bilhões.

A pesquisa também identificou que as secas representaram 53,6% dos registros e concentraram 58,5% das perdas econômicas. Já as inundações foram responsáveis por mais de 55% das mortes registradas.

Os pesquisadores destacam que os impactos não dependem exclusivamente da intensidade dos fenômenos naturais. A falta de planejamento urbano, a ocupação de áreas de risco, a deficiência de sistemas de alerta e a ausência de estruturas adequadas de Defesa Civil também aumentam a vulnerabilidade da população.

Famílias e prefeituras precisam se preparar para situações de emergência

Diante dos riscos, especialistas defendem que a preparação não seja responsabilidade exclusiva dos governos. A população também pode adotar medidas preventivas para enfrentar possíveis interrupções no fornecimento de água, energia, alimentos e serviços essenciais.

Entre as recomendações estão manter água potável armazenada, alimentos não perecíveis, medicamentos de uso contínuo, lanternas, pilhas, carregadores e materiais básicos de primeiros socorros.

O professor Antônio Pasqualetto também considera importante que as famílias tenham condições de enfrentar pelo menos 72 horas de emergência sem depender integralmente de supermercados, farmácias ou serviços públicos.

No âmbito municipal, a prevenção exige planejamento, identificação de áreas vulneráveis, preparação de abrigos, fortalecimento da Defesa Civil e criação de estratégias para garantir o atendimento às famílias atingidas.

A Confederação Nacional de Municípios também alerta para a necessidade de ampliar os investimentos em prevenção. Segundo a entidade, entre 2010 e setembro de 2026, dos R$ 99,8 bilhões autorizados pelo Congresso Nacional para a gestão de riscos e desastres, apenas R$ 27 bilhões foram efetivamente repassados aos municípios.

O dado evidencia um dos principais desafios brasileiros: não basta responder às tragédias depois que elas acontecem, é necessário investir em prevenção, monitoramento e infraestrutura para reduzir os danos.

O avanço dos eventos climáticos extremos coloca em discussão o futuro da segurança hídrica, alimentar e ambiental do país. Com milhões de pessoas já afetadas e prejuízos bilionários registrados, a preparação das cidades e a conscientização da população tornam-se cada vez mais importantes.

Fontes: Confederação Nacional de Municípios (CNM), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI), Universidade de Brasília (UnB), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), Centros de Excelência de Goiás e entrevista do professor Antônio Pasqualetto ao Jornal Opção.

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