Albânia planeja criar novo país dentro de Tirana, menor que o Vaticano

Estado seria criado para a Ordem Bektashi, teria apenas 27 hectares e poderia se tornar o menor país do mundo; projeto ainda precisa ser aprovado e reconhecido internacionalmente

A Europa pode ganhar um novo país — e ele poderá ser menor do que a Cidade do Vaticano, atualmente reconhecida como o menor Estado independente do mundo.

O projeto está sendo desenvolvido na Albânia, onde o governo pretende transformar uma área de aproximadamente 27 hectares, ou 0,27 km², na capital, Tirana, em um Estado soberano destinado à Ordem Bektashi, uma comunidade religiosa islâmica de tradição sufi.

A proposta foi apresentada pelo primeiro-ministro albanês, Edi Rama, e prevê a criação de um pequeno Estado independente dentro do território albanês.

Se o projeto for aprovado e conquistar reconhecimento internacional, o novo país terá uma área inferior à do Vaticano, que possui cerca de 0,44 km².

O plano, porém, está longe de significar que um novo país já tenha surgido na Europa. Antes de qualquer mudança no mapa político do continente, será necessário superar questões jurídicas, políticas e diplomáticas.

Onde ficaria o novo país?

O território proposto fica em Tirana, capital da Albânia, e corresponde à área onde está instalada a sede mundial da Ordem Bektashi.

A região está inserida dentro da capital albanesa e atualmente pertence à própria Albânia.

A proposta é conceder soberania sobre esse território à comunidade religiosa.

Na prática, isso significaria transformar uma área atualmente localizada dentro de um país em um Estado independente, com instituições e território próprios.

O projeto prevê uma área de apenas 0,27 km².

Para efeito de comparação, o Vaticano possui aproximadamente 0,44 km² e atualmente ocupa o posto de menor país do mundo.

Caso a proposta albanesa seja concretizada e reconhecida internacionalmente, o novo Estado passaria a ocupar esse posto.

O que é a Ordem Bektashi?

Os Bektashis são uma ordem religiosa ligada ao islamismo sufi, uma tradição que enfatiza dimensões místicas e espirituais da religião.

A ordem surgiu na Anatólia, região correspondente principalmente à atual Turquia, por volta do século XIII.

Ao longo dos séculos, o movimento se espalhou pelo Império Otomano.

Sua tradição incorporou elementos associados tanto ao islamismo sunita quanto ao xiita e desenvolveu uma interpretação própria de práticas e ensinamentos religiosos.

Os Bektashis acabaram estabelecendo uma relação particularmente forte com a Albânia.

Hoje, Tirana abriga a sede mundial da ordem.

Por que os Bektashis estão na Albânia?

A história da ordem está diretamente relacionada às transformações políticas do antigo Império Otomano.

Com o fim do império e a formação da moderna República da Turquia, o governo turco promoveu medidas de secularização que atingiram ordens religiosas.

Os Bektashis acabaram se estabelecendo na Albânia, país que havia permanecido durante séculos sob domínio otomano.

A comunidade passou a desempenhar um papel na formação da identidade nacional albanesa.

A ordem também ganhou espaço por sua interpretação considerada mais aberta do islamismo e por sua convivência histórica com comunidades de outras tradições religiosas.

Como seria o novo país?

O projeto ainda está sendo elaborado, mas a proposta prevê que o território tenha soberania própria.

Isso significa que, caso o Estado seja efetivamente criado, não seria apenas uma sede religiosa com autonomia administrativa.

A intenção é que exista um país com instituições próprias e uma autoridade soberana.

A proposta prevê a possibilidade de emissão de documentos próprios, como passaportes, além de estruturas administrativas.

O líder mundial da ordem, conhecido como Baba Mondi, seria a autoridade máxima do novo Estado.

O projeto também prevê uma legislação própria.

Um país islâmico diferente

A proposta ganhou destaque também pelo modelo de sociedade defendido pelos Bektashis.

A ordem apresenta uma interpretação considerada liberal do islamismo, com espaço para diferentes formas de vestimenta e liberdade religiosa.

A ideia apresentada por seus líderes não prevê a imposição de determinadas regras islâmicas tradicionais à população.

Entre as características mencionadas está a ausência de uma proibição religiosa sobre o consumo de álcool.

A proposta também prevê liberdade para que as mulheres escolham como se vestir.

O objetivo declarado é construir um Estado associado à tradição Bektashi, mas aberto à convivência com diferentes crenças e filosofias.

Por que a proposta é comparada ao Vaticano?

A comparação com o Vaticano surgiu porque os dois projetos envolvem uma comunidade religiosa com território soberano próprio.

O Vaticano é um Estado independente localizado dentro de Roma, na Itália.

Ele surgiu formalmente em 1929, após a assinatura do Tratado de Latrão entre a Santa Sé e o governo italiano.

O pequeno território passou a garantir a soberania da Santa Sé depois de décadas de conflitos envolvendo a Igreja Católica e o Estado italiano.

O projeto albanês apresenta uma semelhança básica: uma comunidade religiosa teria soberania sobre um pequeno território localizado dentro de outro país.

Mas especialistas ressaltam que a história e a estrutura dos dois casos são bastante diferentes.

O pesquisador de teologia islâmica Besnik Sinani, da Universidade de Tübingen, classificou a comparação entre os dois casos como frágil, justamente pelas diferenças históricas entre a criação do Vaticano e a proposta Bektashi.

O projeto já foi aprovado?

Não.

Esse é um dos principais pontos para entender a notícia.

O governo albanês apresentou a proposta, mas o novo Estado ainda precisa passar por procedimentos políticos e jurídicos.

O Parlamento da Albânia terá papel fundamental na eventual aprovação da legislação necessária para estabelecer o novo território soberano.

Depois disso, surgiria outro obstáculo: o reconhecimento internacional.

Para funcionar como um Estado independente no sistema internacional, a nova entidade precisaria estabelecer relações diplomáticas e buscar reconhecimento de outros países.

Não existe garantia de que todos os governos reconheceriam o território como um país soberano.

Reconhecimento internacional é o principal desafio

A criação de um Estado não depende apenas da decisão de um governo.

Na prática, um novo país precisa conseguir estabelecer relações com outros Estados e demonstrar capacidade de exercer soberania sobre seu território.

O projeto Bektashi ainda precisará enfrentar questões como:

  • definição das fronteiras;
  • cidadania;
  • emissão de documentos;
  • relações diplomáticas;
  • segurança;
  • legislação;
  • administração pública;
  • relações econômicas;
  • reconhecimento por outros países;
  • eventual participação em organizações internacionais.

Juristas internacionais já analisam como uma eventual soberania Bektashi poderia ser estruturada.

O especialista Albert Rakipi, presidente do Instituto Albanês de Estudos Internacionais, afirmou que o tema envolve questões complexas de soberania e reconhecimento internacional.

Turquia não vê a ideia com bons olhos

A proposta também enfrenta resistência internacional.

A Turquia já demonstrou oposição à criação do Estado Bektashi.

A posição turca é especialmente relevante por causa da história da ordem.

Os Bektashis surgiram na Anatólia e possuem uma longa relação histórica com o território turco.

Além disso, Ancara mantém relações políticas importantes com a Albânia.

A criação de um Estado religioso dentro da capital albanesa poderia acrescentar uma nova questão diplomática à relação entre os dois países.

Relação com o Irã também pesa

Outro elemento político envolve o Irã.

A Albânia rompeu relações diplomáticas com Teerã em 2022, depois de acusar o governo iraniano de estar por trás de um grande ataque cibernético contra instituições albanesas.

A Albânia também abriga integrantes de uma organização iraniana de oposição, o que aumentou as tensões entre os dois governos.

Por isso, a proposta de um Estado Bektashi também passou a ser analisada dentro de um cenário geopolítico mais amplo envolvendo Albânia, Turquia, Irã e Estados Unidos.

Por que a Albânia quer criar o Estado?

O primeiro-ministro Edi Rama apresentou o projeto como uma forma de promover uma imagem de tolerância religiosa e convivência entre diferentes comunidades.

A Albânia possui uma população com tradições religiosas diversas, incluindo muçulmanos, católicos, ortodoxos e outras comunidades.

O governo argumenta que a tradição Bektashi pode representar uma forma de islamismo compatível com valores de tolerância e coexistência.

A criação de um pequeno Estado religioso seria, nessa visão, uma maneira de transformar essa característica em uma espécie de símbolo internacional da Albânia.

O projeto também tem implicações políticas

Apesar do discurso relacionado à tolerância religiosa, críticos questionam os motivos políticos por trás da proposta.

O historiador albanês Olsi Jacexhi, especialista em nacionalismo e reformas religiosas no Sudeste Europeu, criticou a iniciativa e argumentou que ela poderia ser utilizada como instrumento político.

Outros especialistas também questionam se a criação de um Estado seria realmente necessária para proteger ou promover a tradição Bektashi.

A proposta, portanto, divide opiniões entre aqueles que a veem como uma iniciativa de tolerância religiosa e aqueles que questionam sua finalidade política.

Nem todos os Bektashis foram consultados

Outro aspecto controverso é que a proposta não teria sido construída exclusivamente dentro da própria comunidade religiosa.

Segundo análise publicada sobre o projeto, integrantes da comunidade Bektashi não teriam sido consultados de maneira ampla antes do anúncio.

Isso alimentou questionamentos sobre quanto da iniciativa representa uma demanda religiosa genuína e quanto corresponde a uma estratégia política do governo albanês.

A questão é particularmente sensível porque a transformação de uma sede religiosa em Estado soberano alteraria significativamente sua relação com o governo da Albânia.

A Albânia já teve uma relação extrema com a religião

A proposta chama ainda mais atenção por causa da história recente do país.

Durante o regime comunista de Enver Hoxha, a Albânia se tornou o primeiro Estado oficialmente ateu do mundo.

Em 1967, o governo comunista proibiu a prática religiosa e fechou mesquitas, igrejas e outros locais de culto.

A repressão religiosa permaneceu durante décadas.

A situação mudou após o colapso do regime comunista, no início dos anos 1990.

Desde então, diferentes religiões voltaram a atuar abertamente no país.

A possibilidade de criação de um Estado religioso dentro da própria Albânia representa, portanto, uma transformação simbólica bastante significativa na história do país.

O novo país seria menor que o Vaticano

Se o projeto avançar, o tamanho será um dos aspectos mais curiosos do novo Estado.

A área planejada é de aproximadamente 27 hectares.

Isso corresponde a:

0,27 km²

ou

270 mil metros quadrados.

O Vaticano possui cerca de 0,44 km², segundo o Guinness World Records.

Portanto, o território Bektashi seria aproximadamente 39% menor que o Vaticano.

A diferença pode parecer pequena em números absolutos, mas seria suficiente para mudar o recorde mundial.

Como seria viver no novo país?

Ainda não existe uma população definida para o eventual Estado.

A área atualmente abriga a sede mundial da ordem e está inserida em uma região urbana de Tirana.

A ideia não é criar uma cidade convencional com milhares ou milhões de habitantes.

O território seria um micropaís, com uma estrutura semelhante, em escala, a outras pequenas entidades soberanas existentes no mundo.

A comparação mais óbvia seria com o Vaticano.

Porém, o modelo político e religioso seria diferente.

Enquanto o Vaticano é uma monarquia eletiva governada pelo papa e está diretamente ligada à Igreja Católica, o eventual Estado Bektashi seria baseado na estrutura da ordem islâmica Bektashi.

O que são micropaíses?

Micropaíses são Estados soberanos com território ou população extremamente pequenos.

A Europa concentra vários exemplos.

Além do Vaticano, estão no continente:

  • Mônaco;
  • San Marino;
  • Liechtenstein;
  • Andorra;
  • Malta.

O Vaticano, com cerca de 0,44 km², é atualmente o menor país do mundo por área.

Mônaco, com cerca de 2 km², aparece logo depois entre os menores Estados europeus.

Se o Estado Bektashi for criado com os 0,27 km² previstos, passaria à frente do Vaticano nesse ranking.

Mas o novo país poderia não ser reconhecido

Esse é provavelmente o maior obstáculo do projeto.

Mesmo que o Parlamento albanês aprove uma lei criando o território soberano, isso não obrigaria outros países a reconhecer a nova entidade.

O reconhecimento internacional é uma questão política e diplomática.

Alguns países poderiam reconhecer o novo Estado rapidamente.

Outros poderiam se recusar.

Também seria necessário avaliar se o novo governo teria condições de estabelecer relações diplomáticas, controle territorial e instituições próprias.

E a União Europeia?

Outro ponto importante é a relação com a União Europeia.

A Albânia é candidata à adesão ao bloco europeu e mantém negociações para avançar no processo de integração.

A criação de um Estado soberano dentro de Tirana poderia gerar questões jurídicas e administrativas envolvendo fronteiras, circulação de pessoas, cidadania e relações com a União Europeia.

Não significa que o novo território automaticamente faria parte da União Europeia.

Seria necessário definir sua relação jurídica com a Albânia e, posteriormente, com as instituições europeias.

Qual seria a capital?

O eventual Estado seria praticamente uma cidade-Estado dentro de Tirana.

A própria sede mundial da Ordem Bektashi funcionaria como centro político e religioso.

Como o projeto ainda não foi aprovado, não existe uma estrutura estatal definitiva nem uma definição formal de todos os órgãos do eventual país.

O que muda para a Albânia?

Caso o projeto avance, a Albânia cederia soberania sobre uma pequena área de seu território.

Em contrapartida, o governo poderia transformar a iniciativa em um símbolo internacional de tolerância religiosa.

A proposta também poderia aumentar a visibilidade da Albânia no cenário internacional.

Mas o governo teria de administrar uma situação inédita: um Estado soberano localizado dentro de sua própria capital.

Isso criaria questões práticas sobre fronteiras, segurança, circulação e relações entre os dois governos.

O projeto pode realmente virar um país?

Pode, mas ainda não há garantia de que isso acontecerá.

A proposta precisa superar pelo menos três grandes etapas:

1. Aprovação dentro da Albânia

O projeto precisa obter respaldo jurídico e político dentro do país.

2. Criação formal das instituições

Seria necessário estabelecer regras de cidadania, governo, território, segurança, legislação e administração.

3. Reconhecimento internacional

Outros Estados precisariam decidir se reconhecem ou não a nova entidade como país soberano.

Essa terceira etapa pode ser a mais difícil.

Entenda o projeto

Onde ficaria o novo país?
Dentro de Tirana, capital da Albânia.

Para quem seria criado?
Para a Ordem Bektashi, uma comunidade islâmica de tradição sufi.

Qual seria o tamanho?
Cerca de 27 hectares, ou 0,27 km².

Seria menor que o Vaticano?
Sim. O Vaticano tem aproximadamente 0,44 km².

Seria o menor país do mundo?
Se for criado com essa área e reconhecido como Estado soberano, sim.

O país já existe?
Não. Trata-se de um projeto ainda em processo de elaboração.

Quem propôs a ideia?
O primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama.

Quem governaria?
A proposta prevê que o líder mundial Bektashi, Baba Mondi, exerça a liderança do novo Estado.

O novo país seria islâmico?
Seria associado à tradição Bektashi, uma corrente do islamismo sufi, mas o projeto apresentado prevê uma estrutura considerada liberal e tolerante em questões religiosas e sociais.

O Vaticano perderia o título de menor país do mundo?
Se o Estado Bektashi for efetivamente criado e reconhecido internacionalmente com 0,27 km², sim.

Em resumo

A proposta da Albânia é uma das iniciativas territoriais mais incomuns em discussão na Europa.

O governo de Edi Rama pretende transformar a sede mundial da Ordem Bektashi, em Tirana, em um Estado soberano de apenas 27 hectares.

A área seria menor que o Vaticano, atualmente o menor país do mundo.

Mas ainda há um longo caminho até que isso aconteça.

O Parlamento albanês precisará aprovar a legislação necessária, o novo Estado terá de definir suas instituições e, principalmente, será necessário obter reconhecimento internacional.

A iniciativa também já provoca debates sobre soberania, religião e interesses políticos.

Se sair do papel, a Albânia não apenas ganhará uma nova entidade dentro de sua capital: o mapa-múndi poderá ganhar um novo país — e ele será o menor Estado soberano do planeta.

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