Os cinco grandes desafios do agro para o próximo presidente

O futuro ocupante do Palácio do Planalto terá diante de si uma agenda complexa para o agronegócio, marcada por entraves estruturais cuja solução vai muito além de um mandato de quatro anos. Com o intuito de direcionar o debate, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) elaborou um documento com cinco propostas de políticas públicas destinadas a solucionar pontos críticos da cadeia produtiva nacional.

Financiamento, endividamento e a urgência do seguro rural

A sustentabilidade financeira dos agricultores é hoje uma das maiores preocupações do setor produtivo. De acordo com Felippe Serigati, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) Agro, o encarecimento do crédito tem sido determinado pelas altas taxas de juros, pelo avanço do endividamento no campo e pelo crescimento nos pedidos de recuperação judicial, fatores que tornaram os bancos mais restritivos.

O pesquisador do Insper Agro Global, Leandro Gilio, ressalta que essa inadimplência decorre de prejuízos consecutivos causados por eventos climáticos severos, insumos caros e custo de capital elevado. Isso vai tendo um efeito em cadeia, prejudicando os investimentos antes da produção. Por isso que, nesse momento, o governo tem de agir de uma maneira um pouco mais forte para tentar evitar que esse processo acabe consumindo os investimentos no setor, afirma.

O alcance do seguro rural ainda é residual: cobre meros 3% da área agrícola do país. Para Serigati, a readequação depende tanto de instituições financeiras quanto de produtores: Os credores vão demandar algum tempinho para que eles possam ajustar novamente suas carteiras de crédito rural. Do lado dos tomadores desse crédito, eles têm de ter as contas mais bem organizadas, para conseguir sinalizar as suas reais condições de pagar.

Nesse cenário, um alívio recente veio com a sanção da Lei 15.526/2026, que reformulou o marco regulatório da área. A legislação atende a demandas antigas do segmento ao regulamentar o Fundo de Catástrofe e conferir caráter obrigatório aos subsídios ao prêmio do seguro, o que impede contingenciamentos orçamentários futuros.

Dependência de insumos externos e gargalos regulatórios

Outra fragilidade sensível reside na importação de adubos. Atualmente, o país compra no exterior cerca de 80% dos fertilizantes químicos aplicados em suas lavouras, dependendo de nações sob conflito ou de rotas vulneráveis, a exemplo do Estreito de Ormuz. Embora exista o Plano Nacional de Fertilizantes, seus impactos são projetados apenas para o longo prazo.

Professor da Esalq-USP, Carlos Eduardo de Freitas Vian lembra das limitações geológicas nacionais: A gente tem matéria-prima para alguns produtos, mas, para outros, a gente não tem. Vamos continuar dependendo de um certo volume de importação. Serigati sugere que, diante disso, o Brasil diversifique seus fornecedores para mitigar riscos geopolíticos.

A Abag também defende celeridade na aprovação de novas tecnologias e a eliminação do passivo regulatório, principalmente em defensivos agrícolas. Contudo, Vian pondera sobre a necessidade de rigor técnico: Porque quando você agiliza esses processos, você pode estar deixando de visualizar alguma outra coisa. Então é um problema mesmo que, para mim, é de difícil solução.

Infraestrutura, armazenagem e inclusão digital

A disparidade entre o crescimento da produção agrícola e a capacidade de transporte e estocagem continua sendo um dos maiores desafios logísticos. Conforme ilustra Serigati: Estamos falando de, em um prazo de quatro anos, um aumento de quase 100 milhões de toneladas, equivalente à safra da Argentina. A infraestrutura tem muita dificuldade de crescer no mesmo ritmo que a produção agropecuária.

As perdas pós-colheita decorrem da falta de armazéns e da precariedade de rodovias. Segundo Gilio, é uma questão bastante grave, que eleva muito o custo e que acaba atingindo diretamente a margem do produtor agrícola e isso requer também uma ação pública. O especialista aponta que a burocracia estatal também atrasa obras essenciais: Porque às vezes os projetos ficam simplesmente parados, são produtos que às vezes são urgentes, já têm às vezes financiamento para fazer, já têm estudos ambientais feitos, e aí, dentro da máquina pública, essas licenças acabam ficando presas.

Para solucionar essas carências, especialistas concordam que o orçamento público é insuficiente e que a atração de capital privado é indispensável. Como sintetiza Serigati, os instrumentos são variados: concessão, privatização ou parceria público-privada.

A infraestrutura de telecomunicações também é deficitária no meio rural, onde mais de 1,3 milhão de domicílios (15% do total) ainda não têm acesso à internet, segundo o IBGE. O professor da Esalq-USP reforça a urgência do problema: Não adianta nada se você tem uma máquina conectada, se você não tem como transferir dados.

Comunicação e diplomacia comercial

O setor também precisa aprimorar a sua imagem interna e externa. Para Carlos Eduardo de Freitas Vian, é fundamental que o agronegócio evidencie suas virtudes ao mesmo tempo em que endereça fragilidades, como o combate ao desmatamento. O docente destaca a importância da atuação coordenada: Eu acho que a gente precisa preparar melhor os nossos representantes, embaixadores, para falar de uma forma institucional, mas acho que a iniciativa privada, as associações, todo mundo de alguma maneira tem o seu papel nisso.

Leandro Gilio lembra que concorrentes internacionais constroem marcas nacionais mais fortes: A gente tem alguns exemplos claros, como o café colombiano, observando que esses produtos passam a ser desejados pela própria origem.

Por fim, a inserção global exige maior proatividade frente a barreiras tarifárias e sanitárias. Como alerta Gilio: Nesse mundo de guerra comercial, em que as barreiras crescem, as tarifas crescem por um lado, as restrições sanitárias por outro. É importante o país trabalhar um pouco mais em construir pontes para que a gente consiga garantir esses mercados. A diversificação de compradores e o cumprimento rigoroso de exigências socioambientais serão determinantes para que o Brasil mantenha sua competitividade internacional.

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