A preservação das florestas tropicais depende de muito mais do que árvores, rios e vegetação. A presença de animais de médio e grande porte também desempenha um papel fundamental para manter o equilíbrio dos ecossistemas.
Um estudo científico realizado na Mata Atlântica brasileira mostra que animais como antas, catetos e veados-mateiros contribuem diretamente para processos naturais importantes para a saúde das florestas.
A pesquisa foi desenvolvida no Parque Estadual Carlos Botelho, localizado no município de São Miguel Arcanjo, no interior de São Paulo.
Os resultados foram destacados em reportagem publicada pela Mongabay Brasil nesta quinta-feira (5).
O trabalho chama atenção para um aspecto frequentemente esquecido nas discussões ambientais: uma floresta pode continuar aparentemente preservada, mas sofrer alterações importantes em seu funcionamento quando perde parte de sua fauna.
Pesquisa acompanhou áreas durante 14 anos
O estudo utilizou um experimento de longa duração, com aproximadamente 14 anos de acompanhamento.
Os pesquisadores compararam áreas onde os animais circulavam livremente com regiões cercadas por estruturas de aproximadamente 1,5 metro de altura, que impediam a entrada de mamíferos de médio e grande porte, com peso superior a um quilo.
Durante o trabalho, foram utilizadas armadilhas fotográficas para monitorar a presença dos animais.
Também foram realizadas coletas de amostras do solo e da serapilheira, nome dado à camada formada por folhas secas, galhos e frutos que se acumulam sobre o chão da floresta.
A comparação permitiu observar como a presença ou ausência desses animais influencia características do ambiente.
Como os animais ajudam a manter a floresta?
Os grandes mamíferos participam de diferentes processos ecológicos.
Ao caminhar pela vegetação, procurar alimentos e movimentar folhas e galhos, eles contribuem para a distribuição da matéria orgânica pelo ambiente.
Também ajudam a misturar resíduos vegetais ao solo, favorecendo a atuação de microrganismos responsáveis pela decomposição.
Outro processo importante é a bioturbação, que consiste na movimentação natural do solo realizada por organismos vivos.
Ao cavar em busca de alimentos, água ou locais para abrigo, determinados animais alteram a estrutura superficial da terra, contribuindo para sua aeração e para a infiltração da água.
Pesquisadores identificaram diferenças na composição do solo
A pesquisa identificou maior diversidade de folhas, galhos e frutos nas áreas onde os animais tinham acesso livre.
Também foram observadas alterações relacionadas à composição química do solo.
Entre os resultados destacados estão mudanças nos níveis de potássio, nutriente importante para o desenvolvimento das plantas, e redução da acidez em determinadas condições analisadas.
Os pesquisadores também observaram diferenças relacionadas à lignina, substância presente nas paredes celulares das plantas e que dificulta a decomposição dos materiais vegetais.
A movimentação e o pisoteio realizados pelos animais podem ajudar a fragmentar essa matéria orgânica, facilitando o trabalho dos organismos decompositores.
Os resultados demonstram que os mamíferos participam de processos que influenciam a circulação de nutrientes e o funcionamento do ecossistema.
Desaparecimento dos animais pode comprometer a regeneração
Uma das principais preocupações levantadas pelo estudo é que a perda de grandes mamíferos pode produzir consequências que vão além da extinção local de determinadas espécies.
Quando esses animais desaparecem, processos naturais relacionados à movimentação do solo, decomposição da matéria orgânica e distribuição de nutrientes também podem ser afetados.
A pesquisadora Letícia Gonçalves Ribeiro, uma das autoras do trabalho, alerta que uma floresta pode continuar aparentemente em pé e, mesmo assim, apresentar alterações importantes nos processos ecológicos que a mantêm.
Isso significa que a conservação ambiental não deve considerar apenas a quantidade de árvores ou a extensão da vegetação preservada.
A presença de uma fauna diversificada também é indispensável para o funcionamento dos ecossistemas.
O que essa descoberta representa para o Cerrado?
Embora o experimento tenha sido realizado na Mata Atlântica, os resultados reforçam uma discussão importante para outros biomas brasileiros, incluindo o Cerrado.
Em Goiás e Minas Gerais, a preservação de espécies como a anta, o veado e outros mamíferos silvestres também está relacionada à manutenção do equilíbrio ambiental.
A fragmentação dos habitats, os incêndios florestais, o desmatamento, a caça ilegal e a expansão desordenada das atividades humanas representam ameaças à sobrevivência de diversas espécies.
A perda desses animais pode comprometer funções ecológicas essenciais e provocar consequências que nem sempre são percebidas imediatamente.
Preservar a floresta também significa proteger os animais
O estudo reforça uma mensagem importante para as políticas de conservação: proteger árvores sem garantir condições para a sobrevivência da fauna pode significar preservar apenas parte do ecossistema.
A floresta depende de uma rede complexa de interações entre plantas, animais, solo, água e microrganismos.
Cada espécie desempenha funções que contribuem para o equilíbrio ambiental.
Por isso, combater o desmatamento e preservar áreas naturais precisa caminhar junto com a proteção dos animais silvestres e de seus habitats.
A conservação da biodiversidade não representa apenas a proteção de espécies ameaçadas. É também uma forma de preservar os processos naturais que permitem às florestas continuar existindo e se regenerando ao longo do tempo.

