O Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU/Ebserh) consolidou seu serviço de transplante de medula óssea como uma das principais referências em hematologia de alta complexidade em Minas Gerais. A unidade realiza tanto o transplante autólogo, em que o próprio paciente é o doador das células-tronco hematopoéticas, quanto o transplante alogênico, em que a medula é proveniente de um doador compatível, geralmente um irmão ou outro familiar.
A oferta das duas modalidades representa um avanço importante para pacientes do Triângulo Mineiro e de outras regiões do país atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Até recentemente, muitos pacientes precisavam ser encaminhados para centros especializados em outras cidades, como São José do Rio Preto (SP). Com a implantação do transplante alogênico no HC-UFU, esse deslocamento tende a diminuir para parte dos casos.
O que é o transplante de medula óssea?
Apesar do nome, o transplante de medula óssea não é uma cirurgia. O procedimento consiste na substituição de uma medula óssea doente por células-tronco hematopoéticas saudáveis, capazes de restaurar a produção normal das células do sangue.
Essas células podem ser obtidas:
- do próprio paciente (transplante autólogo);
- de um doador compatível (transplante alogênico);
- em alguns centros especializados, também do sangue de cordão umbilical.
Antes da infusão das células, o paciente passa por um tratamento chamado condicionamento, que utiliza quimioterapia em altas doses e, em algumas situações, radioterapia, para eliminar as células doentes e preparar o organismo para receber a nova medula. Após a infusão, inicia-se o período conhecido como enxertia, quando as novas células começam a produzir glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.
Diferença entre transplante autólogo e alogênico
O transplante autólogo utiliza as próprias células do paciente. Antes do tratamento intensivo, as células-tronco são coletadas por aférese, congeladas e armazenadas. Após a quimioterapia, essas células são reinfundidas para reconstruir a medula óssea.
Essa modalidade é indicada principalmente para pacientes com:
- linfoma de Hodgkin;
- linfoma não Hodgkin;
- mieloma múltiplo;
- alguns tumores sólidos.
Já o transplante alogênico utiliza células provenientes de um doador compatível. O procedimento é indicado principalmente para doenças em que a medula óssea está comprometida, como:
- leucemias;
- anemia aplástica grave;
- mielodisplasias;
- algumas doenças genéticas do sangue.
Nesse tipo de transplante, o paciente precisa utilizar medicamentos imunossupressores para reduzir o risco da Doença do Enxerto contra o Hospedeiro (DECH), uma complicação em que as células transplantadas atacam tecidos do receptor.
Histórico do serviço no HC-UFU
O HC-UFU recebeu habilitação para realizar transplantes autólogos em 2019.
O primeiro procedimento foi realizado em agosto de 2020 em um paciente de 34 anos diagnosticado com linfoma não Hodgkin. Após o transplante, exames confirmaram o sucesso da enxertia medular, permitindo a alta hospitalar poucos dias depois.
Desde então, o serviço apresentou crescimento contínuo.
Em outubro de 2024, o hospital alcançou a marca de 100 transplantes autólogos realizados, consolidando a maturidade do programa de transplantes.
Em 2025, o número de procedimentos aumentou ainda mais, chegando a 152 transplantes autólogos realizados no ano.
Primeiro transplante alogênico
Um dos maiores avanços ocorreu após o credenciamento do Ministério da Saúde, concedido no segundo semestre de 2025, autorizando o HC-UFU a realizar transplantes alogênicos.
O primeiro procedimento foi realizado em fevereiro de 2026. A paciente recebeu células-tronco provenientes da irmã totalmente compatível, marcando um momento histórico para a instituição.
Segundo a equipe médica, inicialmente o hospital trabalha com transplantes aparentados, ou seja, realizados entre familiares compatíveis. A realização de transplantes com doadores voluntários cadastrados em bancos nacionais deverá ocorrer futuramente, em casos selecionados, conforme expansão da estrutura e da habilitação do serviço.
Estrutura especializada
Para oferecer o tratamento, o HC-UFU dispõe de uma estrutura dedicada ao transplante de medula óssea, composta por:
- quatro leitos exclusivos para pacientes transplantados;
- Hospital Dia específico para acompanhamento dos transplantados;
- equipe multiprofissional especializada.
Participam do atendimento:
- hematologistas;
- enfermeiros especializados em transplante;
- farmacêuticos;
- psicólogos;
- fisioterapeutas;
- nutricionistas;
- odontólogos;
- assistentes sociais;
- profissionais de hemoterapia e laboratório.
O primeiro transplante alogênico contou ainda com apoio técnico de especialistas da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, por meio do Projeto TMO Brasil, desenvolvido dentro do PROADI-SUS.
Benefícios para os pacientes
A implantação do transplante alogênico reduz a necessidade de deslocamento de pacientes da região para outros estados, diminuindo custos, desgaste físico e tempo longe da família durante um tratamento que pode durar vários meses.
Além do benefício assistencial, a ampliação do serviço fortalece o papel do HC-UFU como hospital universitário, contribuindo para:
- formação de médicos residentes;
- treinamento de enfermeiros;
- desenvolvimento de pesquisas clínicas;
- produção científica;
- incorporação de novas tecnologias em hematologia.
Quando o transplante é indicado?
O transplante de medula não é indicado para todos os pacientes com doenças hematológicas.
A decisão depende de diversos fatores, como:
- tipo da doença;
- estágio do câncer;
- resposta à quimioterapia;
- idade;
- condições clínicas gerais;
- existência de doador compatível.
Cada caso é avaliado individualmente por uma equipe especializada em hematologia e transplante de células-tronco hematopoéticas.
Perspectivas
Com a consolidação do transplante autólogo e o início dos transplantes alogênicos, o HC-UFU amplia sua capacidade de atendimento em oncologia e hematologia de alta complexidade.
A expectativa da instituição é manter os transplantes autólogos já consolidados e expandir gradativamente o número de transplantes alogênicos, oferecendo atendimento cada vez mais completo aos pacientes da macrorregião do Triângulo Mineiro e de outras regiões encaminhadas pelo SUS.

