Opinião

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Jadson Freitas

Jornalista


Panorama geral e promessas de “renovação”

O governo recorrerá com frequência a discursos de “prosperidade”, “justiça social” e “sustentabilidade ecológica” — slogans que tentam camuflar problemas estruturais crônicos. Por exemplo, o chamado Plano de Transformação Ecológica é vendido como o pilar de um “novo Brasil”, com metas ambiciosas de crescimento da renda per capita e redução da desigualdade.

Mas qualquer quem acompanha os números sabe: crescimento econômico modesto, dívida pública elevada, inflação persistente e juros altos continuam empurrando o custo de vida para o bolso da população.

Ou seja — promessas de “lançamento ao futuro” com base em palavras bonitas e metas longínquas, enquanto a vida real segue marcada por arrochos, incertezas e cortes.

Crise institucional, política de gabinetes e desgaste da representatividade

A desconfiança pública sobre políticos e instituições continua em níveis alarmantes. Grande parte da população acredita que a corrupção e a impunidade ainda dominam o Estado: o sentimento de que “quase todos os políticos são corruptos” permanece forte.

Ao mesmo tempo, o Legislativo e o Judiciário protagonizam disputas que beiram o grotesco: projetos controversos, acordos de bastidores, lutas por foro privilegiado, revisões de sentenças — tudo isso num ambiente que mais parece teatro do que política a serviço do cidadão.

A retórica populista, o personalismo e o corporativismo atropelam a transparência e a efetividade. Democracia se reduz a troca de favores, discursos inflamados e estratégias de poder, não a governança real — eficiente e justa.

Economia de promessas x realidades sociais

Quando a economia anda devagar, se mascaram problemas com “crescimento de PIB”, promessas de “retomada” e “reformas estruturais”. Mas o cidadão comum sente no dia a dia: inflação que corrói o salário, juros altos, austeridade para quem vive do próprio trabalho.

Programas e reformas superficiais tentam dar ares de progresso — mas sem atacar os nós reais: desigualdade estrutural, concentração de riqueza, precarização do trabalho, burocracia e controle concentrado das instituições públicas. Aí, sobra para a população pagar a conta, muitas vezes sem ver retorno concreto.

Polarização, manobras e crise de governança

O frescor dos debates ideológicos cedeu lugar à polarização maniqueísta, onde meio-termo é tratado como traição. A fragmentação do tecido social, o aumento da intolerância e a decadência do respeito às instituições minam a confiança coletiva — base essencial para qualquer Estado sério.

A imprensa, que deveria ser vigilante, muitas vezes rebaixa o tom ou suaviza críticas dependendo de alinhamentos políticos, enquanto o cidadão comum fica em meio ao fogo cruzado de narrativas e interesses.

Consequência: para boa parte da população, política virou sinônimo de teatro, promessa vazia, escândalo ou dor de cabeça. O sentimento predominante é o de descrença — e com razão.

No Brasil de hoje, as vastas promessas de “renovação” esbarram na velha realidade: governança fraca, corrupção arraigada, dependência de pautas populistas e economia desequilibrada. A política aberta à manipulação, ao marketing e ao jogo de poder, mais do que servir ao cidadão, serve ao círculo que a circula.

Se não houver uma reforma real — de valores, de instituições, de cultura — o risco que se consolida é o de transformar o país num palco permanente de discursos vazios. O eleitorado se cansa, a confiança se esgota, e a indignação cresce.

Do jeito que as coisas caminham, “mudança” vira palavra de ordem permanente — mas mudança de verdade, concreta, talvez jamais se concretize.


O BNDES voltou a mirar o mapa-múndi e, como em um déjà-vu pouco inspirador, decidiu abrir uma linha de crédito para investimentos na África. A justificativa oficial é nobre: fortalecer a presença brasileira no exterior, estimular parcerias e contribuir para o desenvolvimento do continente africano. Mas, convenhamos, o discurso altruísta não esconde o velho hábito brasileiro de financiar sonhos longe de casa enquanto a realidade doméstica desaba.

É difícil não notar a ironia: o país onde hospitais fecham por falta de verba e estradas se esfarelam sob pneus furados agora se apresenta como benfeitor global. Parece que, para o BNDES, o Brasil é um vizinho barulhento: melhor ignorar e investir em relações mais “interessantes” lá fora.

O banco garante transparência e critérios rigorosos. Ótimo. Foi exatamente essa promessa que ouvimos em outras operações internacionais que acabaram em investigações, obras inacabadas e calotes diplomáticos. A história recente deveria inspirar cautela – mas o entusiasmo do BNDES mostra que memória institucional não é seu forte.

Defensores da iniciativa argumentam que apoiar empresas brasileiras no exterior gera empregos e fortalece a indústria. Talvez. Mas fica a pergunta incômoda: por que o banco de desenvolvimento do Brasil parece mais disposto a financiar o crescimento de outros países do que resolver gargalos internos que sufocam a economia nacional?

Enquanto isso, pequenas e médias empresas brasileiras continuam enfrentando burocracia, juros altos e dificuldade de acesso ao crédito. Para elas, o BNDES raramente abre as portas com a mesma generosidade.

O governo celebra a retomada da cooperação Sul-Sul. O contribuinte, por sua vez, observa mais uma rodada de diplomacia financiada com dinheiro que poderia – e deveria – estar circulando em benefício direto da população brasileira. Investir no exterior pode ser estratégico, mas fazê-lo quando o país mal consegue cuidar dos próprios problemas beira o surrealismo econômico.

No fim, a sensação é clara: o BNDES segue disposto a ser o banco de desenvolvimento de qualquer lugar, menos do Brasil.


O recente caso da onça-parda resgatada em uma área residencial de Chaveslândia, distrito de Santa Vitória, no Triângulo Mineiro, volta a expor um problema que vem se tornando cada vez mais comum em várias regiões do país: a presença de animais silvestres em áreas urbanas. Mais do que episódios isolados, essas aparições refletem a pressão crescente sobre o meio ambiente e a redução dos espaços naturais que antes serviam de abrigo e fonte de alimento para essas espécies.

Nas últimas décadas, o avanço das fronteiras agrícolas — em especial o crescimento das áreas destinadas ao plantio de cana-de-açúcar — tem alterado profundamente o equilíbrio ecológico do Cerrado e do Triângulo Mineiro. A derrubada de matas nativas, o desmatamento de áreas de reserva e a fragmentação de habitats deixaram muitos animais sem refúgio, forçando-os a se deslocar para zonas habitadas em busca de comida e segurança.

Para espécies como a onça-parda, que depende de grandes áreas de mata para caçar e se reproduzir, a perda de território é uma ameaça direta à sobrevivência. Ao mesmo tempo, o encontro com o homem aumenta os riscos de conflitos, acidentes e mortes — tanto de animais quanto de pessoas.

Especialistas e ambientalistas alertam que a solução passa pela criação e manutenção de corredores ecológicos, pelo cumprimento rigoroso da legislação ambiental e pela ampliação das áreas de preservação permanente. Além disso, é essencial repensar o modelo de expansão agrícola, buscando práticas mais sustentáveis e menos agressivas aos ecossistemas.

Enquanto a lógica econômica continuar priorizando o lucro imediato em detrimento da conservação ambiental, episódios como o de Chaveslândia seguirão se repetindo — lembrando que, quando os animais chegam às cidades, é porque já não há mais lugar para eles na natureza.


Nos últimos dias, uma cena insólita tomou conta das redes: Paulo Figueiredo e Jeffrey Chiquini, dois nomes ligados ao bolsonarismo, trocaram ofensas em plena transmissão ao vivo. O que começou como uma discussão sobre o caso Filipe Martins — ex-assessor de Jair Bolsonaro — terminou num festival de gritos, acusações e insultos dignos de reality show.

O estopim foi a defesa de Martins. Chiquini, advogado do ex-assessor, acusou irregularidades nos registros migratórios dele nos Estados Unidos. Figueiredo, por sua vez, duvidou da narrativa e chamou o advogado de “oportunista”. A resposta veio quente: “vagabundo”, “seja homem” — e daí pra frente o diálogo virou duelo.

À primeira vista, parece só mais uma briga de internet. Mas é mais do que isso. Esse episódio mostra o que acontece quando o debate político se transforma em espetáculo — e quando quem deveria discutir ideias passa a disputar quem tem o insulto mais forte.

O que está por trás disso

A briga expõe algo maior: a desorganização dentro da própria direita bolsonarista. Figueiredo e Chiquini, que em tese estão do mesmo lado, não conseguem concordar nem sobre a forma de defender seus aliados. O resultado é uma guerra interna transmitida para milhares de pessoas — e aproveitada por adversários políticos, que assistem rindo.

Também há aqui um retrato do nosso tempo: o debate político virou entretenimento. Lives substituem mesas de debate, o “ao vivo” vale mais que a apuração, e o engajamento fala mais alto que o conteúdo. Quanto mais escandalosa a briga, maior o alcance.

Por que isso importa

Quando figuras públicas transformam divergências em ataques pessoais, elas perdem credibilidade — e enfraquecem as causas que dizem defender. Em vez de mostrar firmeza, demonstram descontrole. Em vez de esclarecer o público, confundem.

E há um risco maior: a política perde o lugar da razão. Fica tudo reduzido a um campo de batalha de egos, likes e hashtags.

O que dá pra tirar de lição

  1. Mesmo dentro de um grupo, é preciso maturidade para discordar. Não é porque se está do mesmo lado que se deve brigar em praça pública.
  2. Nem tudo precisa virar espetáculo. Às vezes, o silêncio ou uma conversa reservada valem mais do que uma live explosiva.
  3. Credibilidade se constrói com serenidade. O público não confia em quem perde a compostura ao primeiro sinal de crítica.

O episódio entre Paulo Figueiredo e Jeffrey Chiquini é um retrato fiel do nosso tempo: cada vez mais barulhento, impulsivo e movido por likes. Mas também é um alerta. Se até os “aliados” estão se destruindo ao vivo, talvez seja hora de rever não só o tom das conversas, mas a própria forma como estamos fazendo política.

Editorial por Jadson Freitas


 O Brasil vive um daqueles momentos em que a política parece girar em torno de si mesma, alheia ao país real. Enquanto milhões enfrentam o peso da inflação no supermercado, a lentidão do transporte público e a incerteza do emprego, boa parte de nossos líderes dedica seus dias a disputas menores — batalhas de narrativa, conchavos partidários e uma retórica que pouco toca a vida concreta do cidadão.

A promessa de renovação que tantas vezes se ouve em campanhas se dilui rapidamente nas velhas práticas de poder. A máquina pública continua pesada, os privilégios seguem intactos, e o jogo político parece desenhado para proteger os mesmos de sempre. Falta projeto de país; sobra cálculo eleitoral.

Mas é preciso dizer: há um cansaço no ar. Um cansaço legítimo, que não vem do desinteresse, mas da exaustão. O brasileiro segue pagando caro — em impostos, em paciência e em esperança — por um sistema que responde pouco e cobra muito. Ainda assim, o país resiste. Nas escolas, nas periferias, nos pequenos empreendedores, há uma força que não se deixa engolir pelo desencanto.

O papel da política é reconectar-se com essa força. O Brasil precisa de líderes que saibam ouvir antes de falar, que tenham coragem de contrariar seus próprios grupos e que compreendam que o poder é apenas um meio, não um fim. Não se trata de esquerda ou direita, mas de responsabilidade, empatia e compromisso com o que realmente importa: a dignidade de quem vive deste lado da história.

Cansado, sim. Desistir, jamais.

Editorial por Jadson Freitas


Em meio a uma crise econômica que continua a apertar os cidadãos brasileiros, a falta de ação do Congresso e do Senado se tornou um dos maiores desafios do atual cenário político. Enquanto o país enfrenta problemas estruturais, como a desigualdade social, a inflação crescente e a precariedade dos serviços públicos, as pautas fundamentais para a retomada do desenvolvimento ficam estagnadas, esperando o momento “certo” para serem discutidas. Mas a pergunta que surge é: quando esse momento chegará?

O atual cenário é marcado pela imobilidade legislativa, especialmente no que tange a reformas e projetos de grande impacto para a sociedade. Entre as pautas que estão sendo “empurradas com a barriga”, destacam-se questões essenciais, como a Reforma Tributária, a Reforma Administrativa e a reforma do sistema político. Todas essas propostas, que têm o potencial de transformar o Brasil, estão sendo sistematicamente adiadas ou deixadas de lado, frequentemente por disputas partidárias ou por uma busca incessante por protagonismo político, muitas vezes em detrimento das necessidades urgentes da população.

Essa falta de celeridade no processo legislativo é resultado de uma combinação de fatores. Primeiramente, temos um Congresso altamente fragmentado, onde alianças frágeis e interesses pontuais dificultam a aprovação de qualquer projeto que envolva mudanças profundas. As articulações entre partidos são muitas vezes motivadas por interesses individuais ou regionais, e não por uma visão conjunta para o futuro do país. O Senado, por sua vez, embora um pouco mais estável em termos de composição, também não tem sido eficaz na construção de consensos que levem à resolução das pendências mais prementes.

Outro fator importante que contribui para esse cenário de inércia é o modus operandi da política brasileira, onde a busca por acordos e concessões muitas vezes acaba comprometendo a qualidade das reformas. Em vez de se concentrar em propostas que efetivamente resolvam os problemas do Brasil, as discussões se arrastam por meses ou até anos, enquanto os interesses econômicos e eleitorais de certos grupos são priorizados. A lenta tramitação de pautas como o novo arcabouço fiscal, que tem o potencial de dar uma reconfiguração à forma como o país lida com suas finanças, exemplifica bem esse problema.

Além disso, a falta de liderança clara em ambas as casas legislativas contribui para essa paralisia. A ausência de uma agenda comum e de um compromisso real com o bem-estar da população cria um vácuo de ação. O resultado disso é que, em vez de se concentrar em temas relevantes como saúde, educação e segurança pública, o Congresso e o Senado se envolvem em discussões que mais parecem disputas de poder, à margem das questões que realmente impactam a vida dos brasileiros.

A sensação que fica para a população é de impotência. O eleitor, muitas vezes tão distante das complexidades do processo legislativo, se vê refém de uma classe política que, em vez de cumprir seu papel de representantes do povo, segue enredada em uma teia de interesses próprios. Enquanto isso, as pautas essenciais ficam paradas, aguardando um contexto mais favorável, que parece nunca chegar.

Em um momento de tantas necessidades urgentes, é preciso que o Congresso e o Senado se reorientem. O país não pode continuar à mercê de uma política que privilegia o jogo de poder em detrimento da solução de problemas concretos. A responsabilidade do legislativo é clara: legislar para a sociedade, para o bem-estar da população. E a hora de agir é agora, sem mais adiamentos ou empurrões para o futuro. O Brasil precisa de soluções rápidas e efetivas, e, para isso, precisa de um Congresso e um Senado mais comprometidos com a sua função primordial: a construção de um país melhor para todos.