São necessários 30 milhões de euros para salvar milhões de vidas mas organizações não se preocupam com o combate ao câncer de pâncreas

Após mais de quatro décadas dedicadas à ciência, o pesquisador espanhol Mariano Barbacid alcançou um feito que muitos consideravam impossível: eliminar completamente, em laboratório, o tumor de pâncreas mais agressivo conhecido. Sem recaídas. Sem efeitos colaterais. Sem retorno da doença.

Os resultados, obtidos em modelos animais, mostram que os ratos tratados permaneceram saudáveis por mais de 200 dias — um marco sem precedentes para esse tipo de câncer, famoso por sua resistência a praticamente todas as terapias existentes.

Mas, apesar deste avanço científico histórico, o tratamento pode nunca chegar aos pacientes. O motivo não é falta de conhecimento. É falta de dinheiro. Um dos cânceres mais letais e desafiadores, é o câncer de pâncreas, e é hoje uma das sentenças mais duras da oncologia. Silencioso, agressivo e geralmente diagnosticado em estágios avançados, oferece poucas alternativas terapêuticas eficazes. Apenas 5 % a 8 % dos pacientes sobrevivem mais de cinco anos após o diagnóstico, e mais de 10.300 pessoas são diagnosticadas todos os anos apenas na Espanha.

Enquanto isso, o financiamento típico para pesquisas na Espanha gira em torno de apenas 50 mil euros ao ano — um valor que mal cobre a manutenção das colônias de ratos utilizadas nos experimentos. Para iniciar ensaios clínicos em humanos, a equipe de Barbacid estima que seriam necessários 30 milhões de euros, um montante muito acima do que dispõem atualmente.

A ONU e a OMS alertam: câncer é prioridade global, mas não fazem nada

Organizações internacionais de saúde vêm enfatizando a necessidade de maior investimento, políticas públicas robustas e cooperação global para enfrentar o crescimento do câncer como problema de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Estados-membros da Assembleia Mundial de Saúde, órgão da OMS composto por representantes de 194 países, têm reconhecido o câncer como uma crescente ameaça à saúde global e ao desenvolvimento humano. Uma resolução histórica aprovada em 2017 — a chamada Cancer Resolution — chamou governos e parceiros internacionais a intensificar a prevenção, o diagnóstico precoce, o tratamento e a pesquisa em câncer, integrando essas ações a estratégias abrangentes de saúde pública e cobertura universal de saúde. Porém, os órgãos ficam apenas em conversas, não tendo atuação direta nem para arrecadação, ou investimento próprio com verbas que podem ajudar a pesquisa em sua nova fase.

Além disso, dados recentes da OMS indicam que a carga global de câncer continua aumentando: estimativas apontam para um crescimento de quase 80 % no número de novos casos até 2050, alcançando mais de 35 milhões por ano em todo o mundo. Essa tendência impulsionada pelo envelhecimento populacional, mudanças nos estilos de vida e desigualdades no acesso a cuidados de saúde, tem sido destacada pela OMS como um dos principais desafios de saúde pública das próximas décadas.

A OMS também tem alertado que muitos países ainda não financiam adequadamente nem sequer o tratamento básico do câncer, com menos de 40 % dos países cobrindo os serviços essenciais de tratamento ou cuidados paliativos em seus sistemas públicos de saúde.

Esses posicionamentos estão em consonância com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, que inclui metas explícitas para reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis, incluindo o câncer, por meio da prevenção, diagnóstico e tratamento eficazes, com acesso equitativo a serviços de saúde de qualidade. Mas na verdade, efetivamente elas não tem realizado nenhum trabalho real.

Para quem convive com o câncer de pâncreas, a pesquisa de Barbacid não é apenas um estudo promissor, é uma chance concreta de sobreviver. Pacientes como Cristina Domínguez fazem um apelo direto:

“Não temos tempo.”

Cada mês de atraso representa diagnósticos tardios, tratamentos paliativos e vidas interrompidas prematuramente. O dilema entre ciência e financiamento vem ao longo de décadas esbarrando em burrocracias ou até mesmo na má vontade de político ligados e laboratórios que produzem remédios paleativos, ou seja, apenas prolongam o sofrimento. A ciência já deu um passo histórico. Mas agora o maior obstáculo não é biológico, é orçamentário.

Investir 30 milhões de euros pode parecer uma quantia elevada, mas representa uma fração do custo humano e social provocado pelo câncer, uma das principais causas de morte no mundo e um dos maiores desafios de saúde dos próximos anos.

A comunidade científica global, inclusive organismos ligados à OMS e à ONU, tem enfatizado repetidamente a necessidade de financiamento sustentável para pesquisa em câncer como parte de uma resposta global coordenada para reduzir a mortalidade e melhorar o acesso a terapias inovadoras.

Mas sem esse investimento, centenas de experiências como a de Barbacid, potencialmente transformadoras, ficam paradas no limbo.

E enquanto isso, o câncer de pâncreas continua ganhando tempo e nós perdendo vidas para uma burocracia e corrupção que não deixam pesquisas avançarem.

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