Em 2025, o Brasil registrou uma corrente de comércio de quase US$ 3 bilhões com a República Islâmica do Irã, resultado de exportações que somaram aproximadamente US$ 2,9 bilhões e importações na ordem de US$ 84,6 milhões. O superávit comercial com Teerã alcançou US$ 2,8 bilhões, ainda que o Irã represente uma participação marginal no total das exportações brasileiras — cerca de 0,84% do total exportado pelo país no período.
O desempenho comercial pode parecer um ponto positivo em um contexto global desafiador para a economia brasileira, especialmente diante de cifras robustas como os US$ 348,7 bilhões em exportações totais de 2025, recorde histórico para o Brasil. No entanto, analisar isoladamente o volume de transações com o Irã sem discutir as implicações estratégicas e geopolíticas seria uma leitura superficial da realidade.
Economistas e analistas de comércio exterior destacam que a participação do Irã na pauta brasileira é pequena e limitada, concentrando-se sobretudo em produtos agrícolas, como milho e soja — itens de baixo valor agregado e alta dependência de mercados externos. Essa especialização exportadora reforça um padrão de inserção internacional que privilegia o comércio de commodities, o que, por um lado, assegura entrada de divisas; por outro, mantém o Brasil vulnerável a choques externos e pressões tarifárias sobre bens de maior valor agregado.
Essa vulnerabilidade ganhou nova dimensão com a decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% sobre países que mantenham relações comerciais com o Irã, medida anunciada pelo presidente norte-americano no início de janeiro de 2026. A iniciativa, motivada por tensões geopolíticas entre Washington e Teerã e reforçada por protestos internos iranianos, coloca o Brasil diante de um dilema: consolidar parcerias comerciais em mercados secundários ou confrontar possíveis retaliações econômicas de parceiros estratégicos.
Especialistas em relações internacionais alertam que tal tarifa pode afetar diretamente a competitividade de produtos brasileiros nos mercados norte-americanos, sobretudo se forem ampliadas interpretações protecionistas que extrapolem a relação com o Irã. Além disso, a iniciativa estadunidense sublinha a crescente complexidade de operar em um cenário de disputas comerciais intensificadas por questões geopolíticas — um contexto no qual pequenas cifras bilaterais, como os US$ 3 bilhões com o Irã, passam a ter relevância política maior do que seu peso econômico real.
No plano doméstico, a análise crítica do comércio com o Irã deve levar em conta, também, o foco histórico do Brasil em mercados tradicionais como China e Estados Unidos, que juntos respondem por uma fatia substancial das exportações nacionais. A escolha por fortalecer laços comerciais com países como o Irã, ainda que pouco expressivos em volume, revela o esforço de diversificação de mercados do setor exportador — mas também expõe a necessidade de uma estratégia de inserção externa que considere riscos diplomáticos e econômicos a médio e longo prazo.
Em síntese, os quase US$ 3 bilhões movimentados em comércio Brasil-Irã em 2025 são um dado relevante, mas apenas um fragmento de um mosaico maior: de um lado, a busca por ampliar mercados em um ambiente global competitivo; de outro, a necessidade de equilibrar essa expansão com a gestão criteriosa de pontos de vulnerabilidade geopolítica e econômica que podem repercutir sobre toda a balança comercial brasileira no futuro.
