Paris — Agricultores franceses realizaram nesta semana um novo protesto de grande escala contra o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, intensificando a pressão política sobre o governo francês e as instituições europeias. Tratores voltaram a bloquear vias estratégicas da capital, em uma demonstração de força que expõe a crescente resistência rural ao tratado negociado há mais de duas décadas.
A mobilização ocorre em um momento decisivo, com a Comissão Europeia tentando destravar a assinatura do acordo ainda em 2026, apesar da oposição explícita de setores agrícolas em diversos países do bloco.
Por que os agricultores protestam?
Os produtores franceses afirmam que o acordo abrirá o mercado europeu para carne bovina, açúcar, etanol e grãos sul-americanos produzidos com custos mais baixos e regras ambientais menos rigorosas do que as exigidas na União Europeia.
Segundo os sindicatos rurais, isso criaria uma concorrência considerada desleal, agravando um cenário já marcado por:
- aumento dos custos de produção;
- exigências ambientais mais rígidas;
- queda da renda agrícola nos últimos anos;
- endividamento crescente no campo europeu.
“Não podemos aceitar padrões ambientais rigorosos internamente enquanto importamos produtos que não seguem as mesmas regras”, afirmam líderes sindicais.
Um impasse político para a França
O novo protesto coloca o governo do presidente Emmanuel Macron em uma posição delicada. Embora Paris tenha declarado oposição ao acordo em sua forma atual, a França enfrenta dificuldades para barrar sozinha o avanço do tratado dentro da UE, onde a decisão depende de maioria qualificada entre os Estados-membros e do Parlamento Europeu.
Internamente, a pressão do setor agrícola já produziu efeitos políticos: o tema passou a ocupar o centro do debate público, com partidos de oposição usando os protestos como argumento contra a política comercial europeia e contra o próprio governo.
📌 O que é o acordo Mercosul-UE?
Negociado desde 1999, o acordo prevê:
- redução ou eliminação de tarifas para produtos industriais e agrícolas;
- ampliação do acesso do Mercosul ao mercado europeu de alimentos;
- maior abertura do mercado sul-americano a bens industriais e serviços europeus.
A Comissão Europeia defende que o tratado fortaleceria a posição geopolítica da UE e reduziria sua dependência de parceiros como China e Estados Unidos. Já os críticos afirmam que os ganhos seriam concentrados na indústria, enquanto os custos recaem de forma desproporcional sobre o setor agrícola.
Protestos além da França
A mobilização francesa faz parte de uma onda mais ampla de insatisfação no campo europeu. Agricultores em países como Irlanda, Polônia, Itália e Espanha também têm manifestado resistência ao acordo, sobretudo em regiões fortemente dependentes da pecuária e da produção de grãos.
Esse movimento reforça o risco de que o tratado enfrente dificuldades adicionais de ratificação, mesmo após eventual assinatura formal.
O que vem pela frente
Nos próximos meses, o futuro do acordo Mercosul-UE dependerá de dois fatores centrais:
- Capacidade política da Comissão Europeia de reunir apoio suficiente entre os Estados-membros;
- Resposta dos governos nacionais às pressões internas, especialmente do setor agrícola.
Enquanto isso, os agricultores franceses prometem manter as mobilizações, sinalizando que o impasse está longe de uma solução rápida — e que o custo político do acordo pode ser mais alto do que o inicialmente calculado por Bruxelas.
